EPISÓDIO # 71 - O SENHOR DAS MOSCAS
- Carlos A. Biella

- há 4 dias
- 14 min de leitura

O Senhor das Moscas.
Imagine uma ilha deserta no meio do Oceano Pacífico, onde alguns jovens naufragaram e estão longe de qualquer autoridade, regra ou civilização. O que você esperaria que acontecesse? Reinaria o caos? A violência? Haveria uma volta ao primitivismo? Afinal, quem somos nós quando as máscaras da civilidade caem?
É sobre isso que vamos falar hoje. Então, sejam todos muito bem-vindos e aproveitem.
CONTINUE LENDO...
Saudações a todos. Este é o podcast Mundo Espiritual. Eu sou Carlos Biella e a produção, edição e a apresentação são minhas e a arte das capas dos episódios é feita pelo Hugo Biella.
Ouça ou baixe o podcast, confira o conteúdo do episódio e entre em contato conosco. Estamos no Facebook (https://www.facebook.com/podcastmundoespiritual), no Instagram (https://www.instagram.com/podcastmundoespiritual/) e nas diversas plataformas players de podcast.
Acesse nosso site e confira todos os nossos episódios e outros conteúdos. https://www.podcastmundoespiritual.com.br
Thomas Hobbes, filósofo inglês, que viveu entre os séculos XVI e XVII, dizia que sem um Estado forte para nos controlar, viveríamos em uma guerra de todos contra todos. Segundo ele, a vida seria solitária, pobre, desagradável, brutal e curta. Sem dúvida, esta é uma visão pessimista, de um dos fundadores da filosofia política moderna.
Já para o filósofo francês, nascido em Genebra, Jean-Jacques Rousseau, que viveu no século XVIII, o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe. Para ele, a bondade é inerente ao ser humano e a sociedade, ao instituir desigualdades e vaidades, nos afasta dessa essência. Rousseau apresentava uma visão um pouco mais otimista do homem.
Émile Durkheim, filósofo e sociólogo francês, que viveu entre os séculos XIX e XX, considerado o pai da sociologia, dizia que, em comunidades pequenas, a coesão vem dos valores compartilhados.
Guarde bem estas visões, pois irão permear este nosso episódio.
E quem irá nos acompanhar hoje é a sinfonia La mer (o mar), do compositor francês Claude Debussy, que viveu entre 1862 e 1918. Trata-se de uma sinfonia em três partes e que estreou em Paris, em outubro de 1905. Aqui temos a Boston Symphony Orchestra, sob a direção do maestro russo Serge Koussevitzky.
Em 1954, o escritor inglês, William Gerald Golding, que viveu entre 1911 e 1993, lançava um dos grandes clássicos da literatura mundial: O Senhor das Moscas.
Um dos críticos da época disse que Golding desenhara uma imagem verdadeiramente aterradora da decadência de uma pequena sociedade.
Golding escreveu seu livro como uma resposta aos horrores que viu na Segunda Guerra Mundial. Para ele, a civilização é apenas uma capa fina que poderia esconder horrores.
O próprio título do livro é um alerta à maldade que existe latente dentro de nós.
Antes de continuar, uma explicação.
Você já deve ter ouvido falar em Belzebu, não?
Mas, você sabia que esse termo, deriva do hebraico Baal Zebul, que significa “senhor das alturas”? era uma divindade adorada pelos cananeus e filisteus, associada a fertilidade, agricultura e tempestades. Porém, no Antigo Testamento, há também a forma Baal-Zebude, que significa literalmente “senhor das moscas”, forma essa que deve ter sido usada de forma pejorativa pelos hebreus, para zombar da divindade cananeia.
Em seu livro, Golding explora o lado sombrio da natureza humana e o que acontece quando as regras da civilização desaparecem.
Buscando uma evacuação em meio a uma guerra não especificada, um avião britânico cai em uma ilha deserta, em uma remota região do Oceano Pacífico. Os únicos sobreviventes são garotos na pré-adolescência.
Logo de início, alguns garotos se destacam.
Ralph é eleito o líder do grupo e seu plano de ação é bem simples: divertir-se, sobreviver e manter constantemente uma fogueira acessa, para alertar algum navio que por ali passasse e pudesse resgatá-los. Ralph utiliza uma concha que encontrou, para convocar os outros garotos e este passaria a ser o símbolo de sua liderança.
Temos um outro garoto, bem mais gordinho que os outros, por isso foi apelidado de Piggy (porquinho). Piggy é asmático, inteligente e usa óculos, que, por sinal, foi usado para conseguir fazer o fogo. Ele é a voz da razão.
Temos, também, Jack, que se mostra mais interessado em caçar porcos do que em manter a ordem e representa os instintos mais primitivos e o desejo de poder.
Temos, ainda, Simon, um garoto calmo, sonhador, mais introspectivo e espiritual. Devido a seus constantes desmaios, tremores corporais e alucinações, é provável que ele seja epilético.
Com o passar dos dias, as coisas começam a mudar e a diversão dá lugar à apreensão. Aos poucos, o caos começa a imperar. O medo se espalha entre os garotos, na forma de um monstro, que eles chamam de “a Besta”, que habitaria a ilha onde eles estavam.
Ralph tenta desmistificar o medo, mas Jack usa exatamente o medo para ganhar poder, prometendo caçar e matar a “a Besta”. A desavença entre ambos cresce quando Jack negligencia a fogueira para ir caçar, fazendo com que o grupo perca a chance de ser visto por um navio que passava.
Jack acaba formando sua própria tribo de caçadores no outro lado da ilha. Eles pintam os rostos, abandonam as roupas e agem como selvagens.
Certo dia, Jack e seus seguidores erguem uma oferenda para “a Besta”: uma cabeça de porco, espetada em uma vara e rodeada de moscas.
Simon tem uma alucinação com essa cabeça, chamada de "Senhor das Moscas", que lhe diz que eles, os meninos, são o verdadeiro monstro e que a maldade estaria dentro de todos eles.
Simon descobre que “a Besta” que tanto mete medo neles, é, na verdade, um paraquedista morto, pendurado em uma árvore. Ao correr para contar sua descoberta aos outros, Simon chega no meio de um ritual frenético do grupo de Jack. No escuro e tomados pela histeria, os meninos o confundem com “a Besta” e o matam brutalmente.
Em outro momento, Jack rouba os óculos de Piggy que vai, juntamente com Ralph, tentar recuperá-lo. Ocorre uma briga e um dos meninos acaba matando Piggy com uma pedra.
Ralph foge para o meio da selva e Jack ordena uma caçada humana para matar Ralph. Para forçá-lo a sair do esconderijo no meio da selva, os garotos colocam fogo na vegetação.
Por ironia do destino, é graças a este incêndio que eles são descobertos por um navio da Marinha Real Britânica que estava passando por perto.
Ao serem encontrados pelos oficiais da Marinha, primeiramente Ralph e depois os demais garotos, imundos e de aparência selvagem, todos eles voltam a ser apenas... garotos...e começam a chorar.
O livro diz que Ralph chorava pelos meninos que morreram, pelo fim da inocência e pelas trevas do coração humano.
Mas, o que será que levou Golding a escrever esta obra?
Destaco, aqui, quatro principais fatores.
O desencanto provocado pela Segunda Guerra Mundial, onde ele participou de eventos cruciais, como a perseguição ao navio alemão Bismarck e a invasão da Normandia (no conhecido Dia D. Antes da guerra, Golding acreditava no racionalismo e na bondade inerente do homem. Contudo, ao ver as atrocidades cometidas por homens comuns, destruiu essa visão.
O livro teria sido uma resposta crítica ao romance A Ilha Coral, de 1858, escrito por R.M. Ballantyne, onde um grupo de rapazes britânicos naufraga e mantém a civilidade, a moral cristã e a ordem, enfrentando apenas perigos externos. Golding achava essa visão irreal e colonialista. Ele queria mostrar como crianças reais se comportariam sem a estrutura social imposta por adultos.
Golding trabalhava como professor numa escola para meninos, onde lidava diariamente com jovens indisciplinados e essa convivência deu-lhe um entendimento prático da dinâmica de grupos infantis, da crueldade potencial das crianças e de como a hierarquia e o bullying se formam naturalmente em ambientes sem supervisão.
Lembro, ainda, que o livro foi escrito no início da Guerra Fria (um conflito entre EUA e URSS). Na trama, o avião que transporta os meninos cai enquanto eles estão sendo evacuados devido a uma ameaça nuclear. Esse clima de "fim do mundo" e a ansiedade sobre o colapso da civilização ocidental permeiam toda a narrativa, sugerindo que a barbárie na ilha é apenas um reflexo da barbárie que os adultos estavam cometendo no resto do mundo.
Por sua obra, William Golding recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1983.
O livro O Senhor das Moscas ganhou uma adaptação para o cinema em 1963, dirigido por Peter Brook e outra adaptação lançada em 1990, com a direção de Harry Hook, tendo Golding como um dos roteiristas. Existe, também, uma adaptação filipina de 1975 chamada Alkitrang Dugo.
A BBC está lançando uma adaptação com quatro episódios, com roteiro de Jack Thorne e direção de Marc Munden e ainda não estreou no Brasil.
Pois bem, O Senhor das Moscas é uma ficção. Mas, o que ocorreria se isso acontecesse na realidade?
Bem, existe uma história real, que, creio eu, a grande maioria das pessoas não conhece.
Enquanto o romance de Golding descreveu um grupo de rapazes britânicos, se lançando à selvajaria e violência em uma ilha deserta, a história real de seis adolescentes, revela uma natureza humana oposta, marcada pela cooperação, amizade e disciplina.
Esse fato aconteceu em 1965, onze anos após o lançamento do livro de Golding, e demonstrou que, ao contrário do que disse o filósofo inglês Thomas Hobbes, o homem não é lobo do homem.
Encontrei muitos artigos falando sobre o acontecido e alguns vídeos, também. Dentre o material que utilizei na construção do roteiro deste episódio, encontra-se o livro “Humanidade: uma história otimista do homem”, do historiador e escritor holandês, Rutger Bregman, lançado em 2020.
No capítulo “O Senhor das Moscas da vida real”, Bregman narra o que ocorreu, trazendo relatos de Mano Totau, um dos jovens que viveu o acontecimento e do capitão australiano Peter Warner, que encontrou os jovens na ilha de ‘Ata.
Seis jovens, entre 13 e 16 anos, alunos do internato católico St. Andrew, na cidade de Nuku’alofa, capital de Tonga, país da Oceania, na região da Polinésia, tinham um sonho em comum: todos queriam sair daquele local e navegar até Fiji ou, talvez, até a Nova Zelândia.
Segundo Bregman, os jovens queriam aventuras, não lições de casa; queriam uma vida no mar, não na escola.
Arquitetaram um plano audacioso: roubariam um dos barcos do pescador local, Taniela Uhila e velejariam em busca de seu sonho.
Prepararam-se, então, para a jornada: dois sacos de banana, alguns cocos e um pequeno fogareiro a gás.
E assim, sem mapa ou bússola, naquela tarde de julho de 1965, partiram, Sione, Stephen, Kolo, David, Luke e Mano.
A aventura dos garotos foi interrompida logo na primeira madrugada, quando uma tempestade os alcançou em pleno mar.
Vela rasgada, leme quebrado e oito dias à deriva em alto mar. A comida se acabou. Eles conseguiram recolher um pouco de água de chuva em cascas de coco e dividiram racionalmente entre si.
No oitavo dia, avistaram a pequena ilha de ‘Ata, um grande maciço rochoso, com formações de mais de 300 metros acima do nível do mar.
E ali os seis jovens ficaram...por 15 meses.
Criaram as próprias regras, dividindo-se em grupos de dois para tarefas diárias. Extraiam água de cocos, aprenderam a pescar com técnicas improvisadas e, depois de muito tempo tentando, conseguiram acender fogo, esfregando pedaços de madeira. Escalaram um rochedo e encontraram as ruínas de um antigo assentamento polinésio, que lhes serviu de abrigo e possibilitou alguns materiais para trabalharem. Eles criaram uma pequena comunidade. Cultivaram uma horta, fizeram uma canalização para água de chuva, utilizando troncos, improvisaram pesos para se exercitarem. E o mais importante: mantiveram uma fogueira acesa o tempo todo.
Quando surgia alguma briga, os brigões eram enviados para lados opostos da ilha, para esfriarem a cabeça e refletirem sobre o que tinha ocorrido. Depois de um tempo, eram reunidos novamente e buscavam se desculpar um com outro.
Os dias começavam e terminavam com uma canção e uma prece.
Kolo, um dos jovens, improvisou um violão, usando um pedaço de madeira, casca de coco e arames retirados do barco que haviam usado.
Tentaram sair da ilha uma vez, improvisando uma jangada, mas ela foi destroçada pelas ondas.
Um dia, Stephen escorregou e caiu de um penhasco, quebrando a perna. Os outros garotos o socorreram, fizeram uma tala improvisada com gravetos e folhas e disseram para ele não se preocupar, pois fariam a parte dele nos trabalhos diários. A recuperação de Stephen foi tão boa que o médico que o examinou após o resgate ficou impressionado com a perfeição da cura.
Os garotos foram resgatados em 11 de setembro de 1966, 15 meses após terem saído com um barco roubado.
Peter Warner era filho de um dos homens mais ricos e poderosos da Austrália, Arthur Warner, que administrava um verdadeiro império do mercado de aparelhos de rádio em seu país. Arthur queria que Peter seguisse seus passos, mas Peter resolveu fugir de casa aos 17 anos para navegar pelos mares.
Voltou anos depois, com o título de capitão sueco, mas seu pai queria que ele aprendesse uma profissão que fosse, em sua visão, mais útil. Assim, Peter passou a cursar contabilidade, indo, posteriormente, trabalhar na empresa do pai. Mesmo assim, sempre que podia, Peter se lançava ao mar, indo até a Tasmânia, onde mantinha uma empresa de pesca.
No inverno de 1966, Peter marcou uma audiência com o rei de Tonga, a fim de pedir permissão para pescar lagostas nas águas daquele país, pedido que foi negado. Desapontado com a negativa, Peter voltou para a Tasmânia, mas, antes, desviou o caminho para poder pescar fora das águas reais. Foi assim que o capitão Peter Warner acabou se deparando com a pequena ilha de ‘Ata, onde, percebendo a fumaça de uma fogueira, decidiu investigar, pois devia se tratar de uma ilha deserta.
Deste modo, Peter encontrou os seis jovens, magros, mas saudáveis, vivendo como uma pequena sociedade organizada.
Ao regressarem para Tonga, nem tudo foi festa e os seis jovens foram presos imediatamente, afinal, haviam roubado um barco.
Peter, então, percebendo que a história renderia material para um documentário, entrou em contato com um canal de TV australiano e vendeu os direitos da transmissão, pagando ao Sr. Uhila pelo barco que havia sido roubado e retirando os jovens da prisão, com a condição de que cooperassem na filmagem de um documentário.
O documentário feito pelo Canal 7, da Austrália, não deu muito certo, pois as tomadas não foram boas e boa parte dos filmes se perdeu. Mas, ainda se encontram alguns resquícios deste documentário na internet, bem como outro documentário feito em 2006 por Steve Bowman. Se você tiver interesse e paciência, pode encontrar vários deles no Youtube.
Pois bem, podemos analisar as duas histórias, a ficcional e a real, sob várias perspectivas.
Em pequenas sociedades, a coesão vem dos valores compartilhados, conforme disse Émile Durkheim, que citei anteriormente. Os jovens de Tonga tinham uma cultura de interdependência, enquanto os meninos de Golding tinham uma cultura de competição e hierarquia britânica, mais rígida.
Podemos ver que a natureza humana é plástica, com a antropologia moderna sugerindo que não nascemos bons ou maus, mas sim cooperativos, e nossa sobrevivência, como espécie, dependeu do grupo e não do indivíduo isolado.
A disciplina, como mostrada pelos jovens de Tonga, tem um papel fundamental, como eles demonstraram em suas rotinas de orações, cuidados com a horta, atividade física e, principalmente, pela manutenção do fogo aceso. Ressalto aqui a fé e a espiritualidade presentes, já que os jovens não esqueceram das orações enquanto estiveram isolados.
Deste modo, podemos entender a ficção "O Senhor das Moscas", como a visão da Sombra, enquanto a realidade, a história dos jovens de Tonga, a visão da Luz.
A natureza humana é como um ser que precisa de cuidados: se alimentarmos o medo, como "a Besta" citada no livro, colhemos tirania; se alimentarmos a conexão, como fizeram os meninos de Tonga, colhemos sobrevivência.
O que os garotos de Tonga viveram ficou conhecido como “O Caso Real de Senhor das Moscas”, mas ao contrário do livro, onde tudo termina em violência, na vida real eles provaram que cooperação, disciplina e amizade podem manter um grupo vivo, mesmo nas situações mais extremas.
Enquanto Golding buscou demonstrar que o mal é inerente ao homem, a história dos jovens de Tonga mostrou que a cooperação e a empatia são ferramentas de sobrevivência tão naturais quanto o instinto de defesa.
E já que este nosso podcast se chama Mundo Espiritual, será que podemos buscar algum paralelo entre estas duas histórias e os conceitos contidos na Doutrina Espírita?
Vamos lá, então.
O homem foi criado para a vida em sociedade e, na resposta da questão 767 de O Livro dos Espíritos, temos que, “por instinto, os homens buscam a sociedade e todos devem concorrer para o progresso, auxiliando-se mutuamente”.
Percebam que, no livro, o conflito surge pela ausência de maturidade moral dos personagens, que sucumbem ao egoísmo, que é, para a Doutrina Espírita, a verdadeira chaga da sociedade, conforme consta na resposta da questão 913 de O Livro dos Espíritos.
Já os jovens de Tonga entenderam que a união era a única forma de preservarem suas vidas. Eles exerceram o que a Doutrina Espírita chama de Lei de Conservação por meio do esforço coletivo. É o que vemos na questão 916 de O Livro dos Espíritos: Os homens, quando se houverem despojado do egoísmo que os domina, viverão como irmãos, sem se fazerem mal algum, auxiliando-se reciprocamente, impelidos pelo sentimento mútuo da solidariedade.
O livro O Senhor das Moscas reacende o debate entre os clássicos da Filosofia Política e nos mostra que, a ausência da Lei leva a sociedade à violência.
No início, Ralph é o líder, com uma concha que é um símbolo de democracia e ordem. Aos poucos, Jack assume um poder soberano baseado no medo e na violência. Aqui surge um paralelo com o conceito de Necropolítica de Achille Mbembe, filósofo, cientista político e professor camaronês. Para Mbembe, a soberania não é apenas o poder de governar, mas o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer, como aconteceu na ficção de Golding.
Contudo, a história real dos jovens de Tonga, não pendeu para este lado da violência. Os jovens conseguiram sobreviver através da solidariedade.
O interessante nisso tudo é que, por mais comovente que o que aconteceu com os seis jovens de Tonga seja, é uma história que quase ninguém conhece. Já a história contada por Golding se transformou em uma das mais lidas no mundo, mostrando o lado mais sombrio do ser humano.
Essa é a realidade que os reality shows querem mostrar: os seres humanos, quando deixados sem freios, comportam-se como animais.
Por isso as histórias boas são menos interessantes para a mídia; bem menos que as histórias de violência ou catastróficas. Talvez uma história de solidariedade não seja tão rentável quanto uma história de selvageria, não é mesmo?
Os reality shows, que atraem tanta gente, se valem desta premissa, nos fazendo acreditar que mentir, provocar, trair, enganar, brigar, são comportamentos normais do ser humano. E muitas vezes o são, sem dúvida.
O problema é que, como mostra um estudo do psicólogo norte americano Bryan Gibson, o comportamento hostil mostrado em muitos reality shows, é bom somente para as TVs.
Gibson, que é psicólogo da Universidade Central de Michigan, descobriu que assistir a reality shows contendo o que é chamado de agressão relacional, ou seja, bullying, exclusão e manipulação, pode tornar as pessoas mais agressivas em suas vidas reais.
É isso que disse o especialista em mídia, George Gerbner. O húngaro radicado nos Estados Unidos, professor de várias universidades norte-americanas, apresentou, em 1969, a “Teoria do Cultivo”, que foi concebida para explicar como a mídia de massa, e a televisão em particular, influencia as pessoas ao longo do tempo. De acordo com a teoria, a televisão, ao transmitir mensagens sobre crime e violência, faz com que seus espectadores, especialmente os mais assíduos, adotem uma compreensão compartilhada da realidade social.
Então, seria melhor contarmos mais histórias como a dos jovens de Tonga, não é mesmo?
Este é o podcast Mundo Espiritual e a produção, edição e a apresentação são minhas, Carlos Biella e o Hugo Biella é que faz a arte das capas dos episódios.
Ouça ou baixe o podcast, confira o conteúdo do episódio e entre em contato conosco. Estamos também no Facebook (https://www.facebook.com/podcastmundoespiritual), Instagram (https://www.instagram.com/podcastmundoespiritual/) e nas diversas plataformas players de podcast.
Acesse nosso site e confira todos os nossos episódios e muitos outros conteúdos. Contribua conosco, deixando seus comentários e sugestões de temas.
Acesse https://www.podcastmundoespiritual.com.br.
Caso se interesse, tenho minhas palestras e outros vídeos em meu canal no YouTube. Procure por Carlos Biella, inscreva-se no canal e nos acompanhe. O link está na transcrição do episódio (https://www.youtube.com/channel/UCMpcMSh6nbb9LtujlgfabOA).
Neste episódio, buscamos contrastar a distopia pessimista de William Golding com a resiliência cooperativa da realidade dos jovens náufragos da ilha de ‘Ata.
A história de Golding nos ensina sobre o que devemos temer em nós mesmos: o ego descontrolado.
Já a história dos jovens de Tonga nos ensina sobre o que devemos alimentar em nós: a conexão e a solidariedade.
A alma humana não é um lugar de trevas, mas um santuário que precisa de manutenção diária através da empatia e da fé.
Estas duas histórias nos levam a pensar sobre a natureza humana. Afinal, o ser humano é mais propenso a ser bom ou mau?
A resposta? A resposta fica por conta de cada um de vocês.
Para finalizar, trago aqui o que o capitão Peter Warner disse em suas memórias, deixadas para seus filhos e netos, conforme escreveu Rutger Bregman, em seu livro: “a vida me ensinou uma grande coisa, inclusive a lição de que devemos procurar sempre o que for bom e positivo nas pessoas”.
Fiquem todos em paz e até nosso próximo episódio.






Comentários