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MÚSICA DA ALMA # 18 - BICHO DE SETE CABEÇAS

  • Foto do escritor: Carlos A. Biella
    Carlos A. Biella
  • há 3 horas
  • 10 min de leitura



Bicho de sete cabeças.


O que acontece quando a sociedade confunde rebeldia com loucura? Vamos mergulhar nas páginas sombrias da saúde mental no Brasil e para isso, vamos utilizar um livro, um filme e uma música que serviram como ferramenta de denúncia e libertação. Hoje vamos falar sobre o que acontece quando a sociedade decide que ser diferente é um “Bicho de Sete Cabeças”.

Então, vem comigo.

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Sejam todos muito bem-vindos, este é o podcast Música da alma. Um podcast dentro do universo Mundo Espiritual.

Eu sou Carlos Biella e a produção, edição e apresentação são minhas e a parte gráfica fica por conta do Hugo Biella.

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A história da saúde mental no Brasil é marcada por um longo período de higienismo e exclusão, e poucas obras conseguem traduzir a dor desse sistema de forma tão visceral quanto um livro em especial.

E eu iniciei este episódio com a fala do autor deste livro. Trata-se de Austregésilo Carrano Bueno, numa entrevista concedida ao canal Voz do Brasil, em 2015 (https://youtu.be/jkGpX3nF1qQ).

Em 1990, Carrano publicou um relato autobiográfico perturbador, onde narra sua experiência ao ser internado compulsoriamente pelo próprio pai em hospitais psiquiátricos na década de 1970, após ser flagrado com uma pequena quantidade de maconha. O nome deste livro: Canto dos malditos!

O livro nos mostra as engrenagens de uma "indústria da loucura", onde hospitais funcionavam como depósitos humanos, utilizando eletrochoques e sedação excessiva para punir comportamentos considerados desviantes pela sociedade conservadora da época.

Logo após seu lançamento, o livro foi censurado por anos após processos de médicos citados, mas acabou se tornando um pilar da Reforma Psiquiátrica no Brasil, que culminou na Lei 10.216/2001, a Lei da Reforma Psiquiátrica.

Segundo alguns trabalhos que pesquisei, até o início dos anos 2000, havia cerca de 50 mil leitos psiquiátricos em todo Brasil, onde alcoólatras, homossexuais, prostitutas, viciados em drogas diversas se confundiam com epilépticos, esquizofrênicos e portadores de outros distúrbios mentais. Todos eles sujeitos a um regime que buscava somente conte-los e exclui-los da sociedade dita “normal”.

Na década de 1970, no Brasil, a internação em hospitais psiquiátricos era frequentemente usada por famílias para resolver conflitos geracionais. O simples fato de portar maconha ou contestar a autoridade paterna transformava o jovem em "louco" por decreto social.

É essa realidade que Carrano nos mostra, expondo o tratamento degradante, com uso de eletrochoques, isolamento e a "anulação do eu" através de medicamentos pesados.

Foi essa realidade que ele vivenciou.

Trago agora um resumo da história narrada por Austregésilo Carrano no seu livro Canto dos malditos. 

Ao fundo teremos o violão de Zé Ramalho, interpretando a música Bicho de Sete Cabeças. Daqui a pouco falo um pouco sobre essa música. (https://youtu.be/MxvvdcAWQf0).

Em outubro de 1974, Carrano, então com 17 anos, deu entrada no Hospital Espírita de Psiquiatria Bom Retiro, de Curitiba. Seu pai resolveu interná-lo após encontrar um cigarro de maconha na roupa do filho. Carrano foi enganado por seu pai, que lhe disse que estavam indo visitar um amigo e acabou internando seu próprio filho. 

O livro relata que durante a internação, o jovem passou por 21 sessões de eletrochoque, foi submetido a injeções diárias que causaram feridas, inchaços e infecções, e forçado a ingerir mais de 20 medicamentos diariamente, além de receber surras e ser colocado na solitária. 

Num acesso de desespero, colocou fogo em sua própria cela, fato este que acabou por despertar em seus pais, a consciência do que ocorria no manicômio. Três anos depois da internação, ele foi para casa, onde resolveu escrever um relato das atrocidades vivenciadas durante sua internação. Após muitas recusas, finalmente o livro Canto dos malditos foi lançado, em março de 1990.

Sua repercussão foi explosiva e acabou por levar a Associação Paranaense de Psiquiatria e os familiares do diretor do Hospital daquela época, a ingressarem com medidas judiciais para que a obra fosse retirada de circulação.

Agora, quem irá nos acompanhar é Geraldo Azevedo e seu violão. (https://youtu.be/iocBT2dZczI)

Pois bem, baseado neste livro de Carrano, foi lançado em 2001, o filme Bicho de Sete Cabeças, dirigido por Laís Bodanzky, que adaptou a história de Carrano para o cinema, dando rosto e voz ao sofrimento institucionalizado. O roteiro do filme foi escrito por Luiz Bolognesi e contou com os atores Rodrigo Santoro, que interpretou Neto, o alter ego de Carrano, Othon Bastos como seu pai e Cássia Kiss como sua mãe, além de Jairo Mattos, Altair Lima, Caco Ciocler, Gero Camilo, Luís Miranda, entre outros.

Rodrigo Santoro entregou uma atuação maravilhosa, mostrando a degradação física e mental de um jovem saudável submetido ao sistema manicomial brasileiro daquela época. O filme denunciou a falência das instituições psiquiátricas brasileiras e ganhou vários prêmios, entre os quais o de melhor filme no Festival de Cinema de Brasília no ano 2000, melhor filme no Festival de Recife de 2001 e da Associação Paulista de Críticos de Arte, em 2002. Já Rodrigo Santoro foi premiado como melhor ator nos mesmos festivais, além de ser premiado, também como melhor ator no Festival de Cinema de Cartagena, em 2002 e em mais quatro premiações no Brasil.

Mas, eis que surge a poesia em meio ao caos. A trilha sonora do filme é um elemento fundamental para a imersão na angústia do protagonista. A canção-tema, Bicho de Sete Cabeças, foi composta por Geraldo Azevedo, Renato Rocha e Zé Ramalho e traz uma letra que brinca com a dualidade da percepção e o peso do julgamento social.

A música surgiu antes do filme, e foi lançada originalmente em 1979, no álbum homônimo de Geraldo Azevedo. A gravação teve a participação especial de Dominguinhos. Elba Ramalho e Dona Nenzinha do Jatobá, mãe de Geraldo Azevedo. Confiram... (https://youtu.be/iocBT2dZczI).

Essa música tem uma história bem curiosa. Segundo Geraldo Azevedo, ele e Zé Ramalho, compuseram a melodia no começo dos anos 1970. Fizeram uma mistura de barroco com choro, música clássica e música moura e a batizaram de Dezesseis Cordas, por ter sido composta por um violão de 10 cordas e outro de 6.

Tempos depois, Geraldo Azevedo entregou a melodia a Renato Rocha, para que fizesse a letra.

Surgiram então os versos registrados em disco pelo próprio Geraldo Azevedo, fazendo enorme sucesso, especialmente entre a geração bicho-grilo.

Ah, não sabe o que é isso? Bicho grilo é um termo nascido nos Estados Unidos, na década de 1960 e seguiu pela década de 1970, caracterizada pelo inconformismo de uma geração que não aceitava o conservadorismo da época. Eram pessoas, normalmente jovens, que pregavam o amor livre, tinham preocupação ambiental, e buscavam a liberdade, inclusive na forma de se vestir. Eram uma espécie de hippies.  

Pois bem, ao ouvir a melodia letrada, Zé Ramalho não gostou nem um pouco, chegando a dizer para Geraldo Azevedo: "é, realmente, não tem pé, não tem cabeça!"

Zé Ramalho, então, pediu para que, sempre que a música fosse apresentada só na versão instrumental, chamá-la Bicho de Sete Cabeças e, quando vier com a letra, passar a ser Bicho de Sete Cabeças II.

Geraldo Azevedo conta que ficou feliz quando os produtores do filme Bicho de Sete Cabeças escolheram a canção para dar nome e embalar o encerramento do filme.

Quanto a isso, a diretora Laís Bodanzky, no livro Bicho de Sete Cabeças: roteiro do filme, escrito por Luiz Bolognezi, disse que era necessário encontrar um título que substituísse o nome do livro de Carrano, uma vez que o filme não era exatamente o livro, mas inspirado nele. Daí a utilização da música como título do filme.

Embora existam diversas versões, a interpretação de Zeca Baleiro para o filme é emblemática, trazendo uma carga dramática que reforça a sensação de clausura mostrada no filme (https://youtu.be/Z2yI9OVCHvk?list=PLmuEOpS9dCESOVg33Uc3Y0jowJKPl8ERA).

A letra composta por Renato Rocha, utiliza uma linguagem circular e repetitiva para mimetizar a sensação de desnorteamento e a fixação de um pensamento obsessivo ou de uma injustiça. Ou seja, tem tudo a ver com a narrativa da história mostrada no filme e na autobiografia de Carrano.

Então, vamos lá, falar um pouco desta música...afinal, este é o Música da Alma!

Sabe quando alguém faz tudo para que você acredite que você é o problema? Quando um outro te culpa, distorce aquilo que você fala e sente? Pois é, nestes casos, você acaba ficando realmente confuso e se sentido culpado. Creio ser disso que essa canção fale. A letra parece um desabafo de alguém que busca gritar por seu direito.

Não dá pé, não tem pé nem cabeça

Não tem ninguém que mereça

Não tem coração que esqueça

Não tem jeito mesmo

Parece o grito de alguém que busca uma explicação racional para uma dor que não se explica.

O sujeito não consegue, diante de tanta dor e injustiça, organizar as palavras para buscar uma explicação. Não tem pé nem tem cabeça.

Não tem dó no peito

Não tem jeito

Não tem ninguém que mereça

Não tem coração que esqueça

Não tem pé, não tem cabeça

Não dá pé, não é direito

Não foi nada

Eu não fiz nada disso

E você fez

Um Bicho de Sete Cabeças...

O sujeito diz que alguém não tem dó no peito e que ninguém merece passar pelo que está passando.

A letra relata situações pelas quais vivenciamos, quando, de repente, do nada, tudo na vida parece sair do eixo, por exemplo quando alguém interpreta nossas palavras de uma maneira equivocada, exacerbando uma situação que na realidade não existe, ou seja, fazendo um bicho de sete cabeças.

Essa expressão é muito usada quando alguém exagera uma situação, como aconteceu com Carrano e como foi mostrado no filme, com o personagem Neto. O pai internando seu filho devido a um cigarro de maconha encontrado em sua roupa.

Aqui, no contexto do filme e da luta antimanicomial, bicho de sete cabeças refere-se à irracionalidade do sistema: internar um jovem por um conflito familiar não tem "pé nem cabeça". É o absurdo institucionalizado.

Vem cá...o que você acha? Foi um exagero ou não. O pai criou um bicho de sete cabeças?

Afinal, não houve escuta, diálogo ou dó no peito por parte do pai.

Não dá pé

Não tem pé, nem cabeça

Não tem ninguém que mereça

Não tem coração que esqueça

Não tem jeito mesmo

Não tem dó no peito

Não tem nem talvez ter feito

O que você me fez desapareça

Cresça e desapareça...

O tratamento manicomial deixa marcas que o "coração não esquece". A repetição da negação ("Não tem pé, nem cabeça, Não tem ninguém que mereça, Não tem coração que esqueça, Não tem jeito mesmo, Não tem dó no peito, Não tem...Não tem...") reforça o sentimento de desamparo e a falta de saída.

Então, o eu lírico, o sujeito, busca entender o que foi feito com ele e, quando rompe as algemas, coloca toda seu inconformismo com a situação...

Nesse momento, aquele eu lírico, aquele sujeito que estava buscando entender se o que estava acontecendo com ele era certo ou não, grita: Não tem nem talvez ter feito o que você me fez...desapareça!

Enfim, essa canção traz a dor de quem não pode ser ouvido, de quem não foi compreendido, de alguém que foi julgado sem ter sua opinião sendo levada em conta.

A música apresenta a natureza avassaladora e complexa dos problemas que foram criados, sem que houvesse necessidade de isso ocorrer, graças a uma exacerbação de uma situação que seria, aparentemente, normal e nos mostra toda mágoa, decepção e sentimento de ter sido enganado por alguém em quem se confiava.

Lembro que o fato com Carrano ocorreu numa época em que o Brasil vivia em meio a intensa censura e repressão, período este em que a psiquiatria e a repressão política andavam bem juntinhas.

Deste modo, todo aquele que não estivesse dentro do que se considerava “normal”, poderia ser facilmente internado em um manicômio. Aqui se enquadram jovens com atitudes de rebeldia, como Carrano, mulheres que não aceitavam a submissão, alguns comunistas indesejados, entre vários outros.

O que é mais triste, é o fato de que a grande maioria das internações forçadas, se dava pela própria família, num conservadorismo excessivo, que não aceitava uma sociedade sendo manchada por membros fora da dita normalidade.

Entre as diversas interpretações desta música, uma das mais belas ficou por conta de Ney Matogrosso que a gravou no disco Beijo Bandido, de 2009 (https://youtu.be/pLT9SlSbgXw).

Essas três obras convergem em um ponto central: a denúncia de que, na história recente do Brasil, o manicômio não servia para curar, mas para silenciar aquele que era diferente.

A internação de Carrano não foi motivada por uma patologia clínica, mas por um conflito geracional, familiar e social.

Assim, o filme e o livro forçaram o público a encarar o que acontecia dentro dos muros de instituições manicomiais no Brasil e a loucura deixou de ser um "tabu familiar" para se tornar uma questão de saúde pública e direitos fundamentais.

O livro deu o testemunho, o filme deu a visibilidade emocional e a música deu o tom lírico dessa tragédia real que ajudou a impulsionar o fechamento de muitos hospícios no país e a criação dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial).

A junção destas obras, ou seja, o livro de Carrano, o filme de Bodanzky e a música de Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e Renato Rocha, forma um dos retratos mais potentes e necessários sobre a dignidade humana e o direito à liberdade e acabaram por trazer mudanças sociais no Brasil, justamente por expor as injustiças que ocorriam em muitos hospitais psiquiátricos, ajudando a acelerar a reforma no sistema manicomial brasileiro.

Atualmente, as instituições psiquiátricas brasileiras oferecem um tratamento mais humanizado aos pacientes e o Brasil conta com os CAPS, que fazem um excepcional trabalho com seus pacientes.

Bem, eu tive a oportunidade de ler o livro, assistir ao filme, mais de uma vez e sempre gostei da música, além de ter um certo interesse sobre a temática da loucura, desde os tempos da juventude.

Pois é, o tempo passou e eu continuo buscando entender e estudar a loucura...quem sabe vem mais coisas por ai a esse respeito...

Este é o podcast Música da Alma e eu sou Carlos Biella e a produção, edição e apresentação são minhas e a parte gráfica fica por conta do Hugo Biella.

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Música da Alma, um podcast para te provocar emoções.

Enquanto o livro de Carrano foi o grito de quem viveu o horror e a música deu o tom da angústia, o filme consolidou a percepção de que a loucura, muitas vezes, é uma construção social usada para higienizar a sociedade daqueles que não se ajustam às normas vigentes. O legado dessas obras é o lembrete constante de que uma sociedade se julga pelo modo como trata seus cidadãos mais vulneráveis.

Finalizo com a frase final do livro Canto dos Malditos:

Crime não é apenas matar o nosso semelhante. É também deixa-lo inútil, matando sua iniciativa e vontade própria, transformando-o numa besta humana.

Fiquem todos em paz, cada qual com sua loucura, e até nosso próximo episódio.


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