top of page

MÚSICA DA ALMA # 19 - DISPARADA

  • Foto do escritor: Carlos A. Biella
    Carlos A. Biella
  • há 7 dias
  • 10 min de leitura



Disparada.


Prepare seu coração, pras coisas que eu vou contar...

Foi assim que a voz de Jair Rodrigues inscreveu para sempre na musicalidade brasileira, um verdadeiro monumento composto por Geraldo Vandré e Théo de Barros.

Prepare seu coração, pois hoje vamos falar sobre a música “Disparada”.

Então, vem comigo e aproveite.

CONTINUE LENDO...

Sejam todos muito bem-vindos, este é o podcast Música da alma. Um podcast dentro do universo Mundo Espiritual.

Eu sou Carlos Biella e a produção, edição e apresentação são minhas e a parte gráfica fica por conta do Hugo Biella.

Acompanhe todos os nossos episódios nas plataformas players de podcasts, procurando por podcast Música da Alma, ou acessando o site www.podcastmundoespiritual.com.br e clicando na aba Música da Alma.

O ano era 1966 e graças aos musicais da televisão, São Paulo era o centro para onde convergiam os maiores nomes da música brasileira. Entre os dias 27 de setembro e 10 de outubro daquele ano de 1966, foi realizado o II Festival de Música Popular Brasileira, organizado pela TV Record. O evento foi realizado no Teatro Record Consolação e foi um evento que marcou a ascensão da música brasileira e acabou por consolidar dois gêneros musicais de grande relevância no século XX: as canções de protesto e o tropicalismo.

Acontece que, antes mesmo do festival, cantores e compositores se reuniam em bares para mostrar suas novas composições. Assim, os frequentadores destes bares já conheciam várias das músicas inscritas, que eram cantadas por seus autores, ansiosos em sentir a reação de um microcosmo do que seria a plateia no Teatro Record. Essa ansiedade era compartilhada com jornalistas ou com futuros adversários.

Foi assim que certa noite, Geraldo Vandré, pegou seu Fusquinha e saiu com o jornalista Alberto Helena e o produtor musical Luiz Vergueiro. De repente, Vandré parou o carro e disse: "Eu vou cantar para vocês a música que vai ganhar o festival. É a maior revolução, porque é o sertanejo moderno com Guimarães Rosa; vocês não têm a menor ideia do que vai ser". E cantou "Disparada". Os dois ficaram se olhando abismados. Foi uma porrada, era uma música revolucionária, coisa de um visionário.

Esse é um relato que retirei do livro A era dos festivais, de Zuza Homem de Melo, da qual irei me aproveitar em boa parte deste roteiro.

E o festival aconteceu, inicialmente em 3 eliminatórias, nos dias 27 e 28 de setembro e 1º de outubro. Na primeira eliminatória, no dia 27 de setembro de 1966, a música mais aplaudida foi "Disparada".

A música foi interpretada por Jair Rodrigues acompanhado pelo Trio Marayá, composto por Hilton Acioly, Behring e Marconi, e pelo Trio Novo, com uma instrumentação pra lá de estranha: uma viola caipira tocada por Heraldo do Monte, uma queixada de burro tocada por Airto Moreira e um violão tocado pelo autor da música, Théo de Barros.

A interpretação de Jair Rodrigues foi marcante, com uma concentração que surpreendeu a todos, habituados a vê-lo despachado e efusivo em seus sambas. No entanto, a maior surpresa ficou por conta dos estalidos que ecoavam pelo teatro cada vez que Airto Moreira castigava as mandíbulas do mais extravagante e vigoroso instrumento que jamais ressoou no Teatro Record. Ninguém imaginava que uma queixada de burro pudesse ser aproveitada como instrumento de percussão com resultado tão poderoso, como se nele estivessem embutidos um amplificador e uma câmara de eco.

A receptividade que a música teve por parte do público, chegou a levar Vandré às lagrimas.

Na segunda eliminatória, apresentada no dia seguinte, “A Banda”, de Chico Buarque, interpretada por Nara Leão, foi quem sobressaiu.

A terceira eliminatória não trouxe nada de especial. Assim, tanto para o júri quanto para o público, apenas duas músicas disputariam a Viola de Ouro: a marchinha "A Banda" e a moderna moda de viola "Disparada". As demais concorrentes estavam praticamente fora do páreo.

Nos dias seguintes a última eliminatória, São Paulo passou a viver em função do grande duelo marcado para a final do II Festival da Record. Nas rodas e reuniões, a discussão sempre desembocava nas preferências entre as duas músicas. Como as transmissões diretas do Festival chegavam a quase todo o país, via rádio ou televisão, o tema ganhou amplitude nacional. Nunca o Brasil vivera uma discussão cultural tão empolgante como aquela. "A Banda" contra "Disparada" era como Palmeiras e Corinthians, como Flamengo e Fluminense e numa decisão de campeonato. O jornal Estado de S. Paulo resumiu assim: "Desde o finzinho de setembro, só duas torcidas contam: a da Associação Atlética Disparada e a da Banda Futebol Clube".

O duelo estava armado e seria decidido na grande final do festival.

Ao fundo estamos ouvindo uma versão instrumental, bem interessante. Trata-se de André Juarez Quarteto, num show que ocorreu no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, em São Paulo, em novembro de 2020, no show de lançamento do álbum Azul (https://youtu.be/lMsHcyEljoo).

Vandré criou a letra da canção, voltando de uma viagem ao interior do estado de São Paulo. Era uma letra longa, de tom regional, mas sem se prender a uma zona determinada. Entregou-a para Théo de Barros e lhe pediu que fizesse a música, que foi feita em duas ou três noites. Mesmo cortando algumas frases, a canção ficou bem comprida e ganhou o subtítulo "Moda Para Viola e Laço" e que depois acabou intitulada “Disparada”. Por serem uma das últimas inscritas, os autores ficaram sem muita opção na escolha do intérprete, quando Solano Ribeiro, organizador do festival, sugeriu Jair Rodrigues, que sabia ter sido criado no interior e, portanto, poderia se identificar com aquele tipo de música. Temendo que um sambista pudesse acabar com sua música, Vandré foi com Hilton Acioly, do Trio Marayá, ao apartamento de Jair, para convidá-lo a defender "Disparada". Vandré quis certificar-se de que ele não faria as brincadeiras costumeiras em suas interpretações e disse: "Olha, não brinca muito quando você for cantar minha música, porque ela é coisa séria". Jair entendeu o recado. Durante os ensaios na casa de um casal venezuelano no bairro das Perdizes, foi feito o arranjo com a participação do Trio Marayá nos vocais e as novidades que transformaram a apresentação de "Disparada" na mais chocante exibição musical da Era dos Festivais, especialmente o uso da queixada de burro estalada pelo percussionista Airto Moreira. Como Vandré queria o som de uma chicotada para combinar com a letra, Airto fez várias tentativas, quando se lembrou das orquestras espanholas, onde, nas pausas dos cantores flamencos, o percussionista esmurrava uma queixada produzindo um som de grande efeito. Encontrou uma queixada com um baterista em Santo André. A queixada era perfeita, os dentes ficavam meio soltos e estremeciam na mandíbula prolongando o estampido do impacto, como um eco. Era exatamente o som da chicotada que Vandré queria.

 Além disso, o som da viola caipira, numa época em que os trios de bossa nova ainda dominavam, criou uma sonoridade musical que caiu como uma luva para a expectativa da plateia mais politizada.

Vandré deu algumas sugestões na atuação de Jair Rodrigues que, quando entrou no palco pela primeira vez, pegou a plateia de surpresa.

Era outro Jair Rodrigues. Ao atingir o meio do palco, parou diante do microfone, manteve a perna esquerda à frente, a direita para trás, ficou de perfil, apenas com o tronco voltado para o público, amarrou a cara e atacou:

"Prepare o seu coração/ pras coisas que vou contar/ eu venho lá do sertão/ eu venho lá do sertão/ eu venho lá do sertão/ e posso não lhe agradar...". (https://youtu.be/QonDtLlh1bI)

O público manteve um silêncio gritante. Apelidado de "Cachorrão", Jair Rodrigues, um cantor alegre que provocava gargalhadas com o espalhafato com que apresentava sambas, cantou a música inteira sem dar um sorriso.

Foi um impacto inesquecível, e, aquele, o momento mais importante de sua vida artística. Quando atingiu a nota mais aguda nos versos "Na boiada já fui boi/ boiadeiro já fui rei/ não por mim nem por ninguém/ que junto comigo houvesse", o público explodiu em aplausos. Sem dúvida, "Disparada" se impôs graças a Jair Rodrigues.

E veio a grande final no dia 10 de outubro daquele ano de 1966. A disputa entre “A Banda” e “Disparada”, continuou. A plateia dividida. O júri se reuniu e contou os votos. De acordo com o relatado no livro “A era dos festivais”, a decisão final seria 7 votos para “A Banda” e 5 votos para “Disparada”. Uma decisão apertada. Com juízes que preferiam a música de Vandré, mas voltaram na de Chico. Contudo, ao escutar nos corredores que teria ganho, Chico Buarque falou com um dos organizadores do festival, Paulinho Machado de Carvalho: “Olha aqui, não me deixa ganhar de "Disparada". Eu não posso levar esse prêmio sozinho. - Como? O júri é que decide. - O júri pode decidir o que quiser. Eu não quero levar esse prêmio sozinho. Se "A Banda" for a primeira, eu devolvo o prêmio em público”.

Assim, aquilo que estava acontecendo desde as eliminatórias, tornou-se inevitável: empate entre as duas canções.

"Disparada" é uma obra prima criada por Geraldo Vandré e Théo de Barros.

Ela inicia com uma introdução instrumental vigorosa com viola e violão. Depois, vem a melodia, num andamento lento, até o primeiro retorno da introdução, quando estala a queixada de burro, mudando o andamento da melodia.

A letra traz uma narrativa longa, que pode desagradar alguns, concentrando-se na figura do boi, do boiadeiro e de sua boiada. Fala de alguém que, por necessidade, foi boiadeiro e rei. A poesia da letra fala que ele vê o mundo rodar nas patas de seu cavalo. E faz uma grande analogia, entre gado e gente, dizendo que gado, a gente marca, tange, ferra, engorda e mata. Mas com gente é diferente.

É uma canção épica que marcou especialmente aquela geração de brasileiros, a classe estudantil que buscava ouvir uma mensagem revolucionária, que Vandré conseguiu introduzir nessa canção.

Sua letra denuncia o tratamento a que eram relegadas as pessoas do sertão, que sofriam com a seca e a fome, além de fazer um comparativo entre o gado e as classes socialmente mais pobres no Brasil. Então, vamos lá...

O sujeito se apresenta, dando-se toda a importância e já avisando que pode ser que quem o ouvir, não irá se agradar. Mas, a quem ele não agradaria? Lembro que era época do regime militar e as propagandas nacionalistas, apregoavam um avanço econômico, buscando mostrar que o regime militar seria algo positivo.

Prepare o seu coração

Pras coisas que eu vou contar

Eu venho lá do sertão

Eu venho lá do sertão

Eu venho lá do sertão

E posso não lhe agradar

Então ele se mostra, talvez como um herói...

Aprendi a dizer não

Ver a morte sem chorar

E a morte, o destino, tudo

A morte e o destino, tudo

Estava fora de lugar

Eu vivo pra consertar

O sujeito, então, se acha preparado para mudar o mundo...

Na boiada já fui boi

Mas um dia me montei

Não por um motivo meu

Ou de quem comigo houvesse

Que qualquer querer tivesse

Porém, por necessidade

Do dono de uma boiada

Cujo vaqueiro morreu

Entendemos que o sujeito seria um boiadeiro, um herói de uma classe mais simples e humilde, mas, que mesmo assim, enxerga a si mesmo com muito encanto...

Boiadeiro muito tempo

Laço firme e braço forte

Muito gado e muita gente

Pela vida segurei

Seguia como num sonho

E boiadeiro era um rei

E esse boiadeiro acaba despertando para uma nova faze de sua existência...

Mas o mundo foi rodando

Nas patas do meu cavalo

E nos sonhos que fui sonhando

As visões se clareando

As visões se clareando

Até que um dia acordei

Agora vemos que o boiadeiro se recusa a trabalhar para alguém que trata gente como gado, fazendo uma analogia entre a exploração da boiada pelos boiadeiros e como as pessoas estavam sendo tratadas da mesma maneira...

Então não pude seguir

Valente em lugar tenente

E dono de gado e gente

Porque gado a gente marca

Tange, ferra, engorda e mata

Mas com gente é diferente

Então, o sujeito, o boiadeiro, se mostra intransigente...

Se você não concordar

Não posso me desculpar

Não canto pra enganar

Vou pegar minha viola

Vou deixar você de lado

Vou cantar noutro lugar

Agora o sujeito repete que já foi boi e rei, fazendo aqui, talvez, uma alusão dúbia, buscando a volta da democracia e, também, uma revolução social.

Na boiada já fui boi

Boiadeiro já fui rei

Não por mim nem por ninguém

Que junto comigo houvesse

Que quisesse ou que pudesse

Por qualquer coisa de seu

Por qualquer coisa de seu

Querer ir mais longe que eu

Bem, a canção pode nos mostrar toda a insatisfação do boiadeiro diante da vida, apresentando uma metáfora sobre o despertar da consciência de um boiadeiro, também podendo representar o despertar da consciência da classe trabalhadora brasileira.

A interpretação de Jair Rodrigues levou o público ao delírio, muito devido a ele ter colocado seu coração na interpretação.

Em uma entrevista, dias depois da apresentação, Jair explicou por que era a pessoa certa para defender a música: Meu pai morreu no lombo de um burro. Ele era boiadeiro, o velho Severiano Rodrigues de Oliveira. Acho que o ‘Disparada’ tem muita coisa a ver com ele.

Esse foi o grande momento na carreira de Jair Rodrigues, como ele mesmo contou numa entrevista em 2009, no programa “Miguel Vaccaro Netto”, que ia ao ar no canal TV Aberta, de São Paulo (https://youtu.be/NzR0JcFVelA). Miguel Vaccaro Netto, empresário e apresentador, perguntou para Jair Rodrigues qual teria sido seu momento mágico e ele respondeu assim...

Disparada foi gravada por Jair Rodrigues pela Philips, em 1966, com Vandré, que tinha contrato com a RCA, cedendo os direitos para que ele a gravasse. Assim, o compacto saiu com "Disparada" no lado A e "Fica Mal Com Deus", também de Geraldo Vandré no lado B. 

Como se trata de uma canção que fala de boiadeiro, trago aqui a interpretação de Disparada, com uma das maiores duplas sertanejas brasileiras, Tonico e Tinoco (https://youtu.be/xsImIasWjeE).

A canção foi gravada também por Paulinho Nogueira, Adauto Santos, Sérgio Reis e Wilson Simonal, entre outros.

Ganhou, também uma versão em italiano com Ornella Vanoni (https://youtu.be/YU5q3Vilf-I), em francês, com  Frida Boccara (https://youtu.be/J0s9VvKrLZ4) e em espanhol com o Conjunto Ponta Porã  (https://youtu.be/_3wn60qR0t8).

“Disparada” se tornou um hino de resistência e justiça social, permanecendo até hoje como uma referência importante na música de protesto brasileira.

É uma canção que oferece várias camadas de interpretação, resiliente em seu significado social, cultural e político, trazendo uma crítica social e de protesto e que continua gravada na história da musicalidade brasileira, para sempre.

Este é o podcast Música da Alma e eu sou Carlos Biella e a produção, edição e apresentação são minhas e a parte gráfica fica por conta do Hugo Biella.

Acompanhe todos os nossos episódios nas plataformas players de podcasts, procurando por podcast Música da Alma, ou acessando o site www.podcastmundoespiritual.com.br e clicando na aba Música da Alma.

Visite meu canal no Youtube e confira diversos vídeos, procure por Carlos Biella, inscreva-se e nos siga.

Música da Alma, um podcast para te provocar emoções.

Quase sessenta anos depois, “Disparada” continua sendo uma canção poderosa, nos fazendo refletir sobre justiça, igualdade e identidade cultural no Brasil e, quando ouvimos a interpretação de Jair Rodrigues a cantando, ainda é possível sentir um arrepio, pois é uma canção que toca fundo na alma e sacode o sentimento de resiliência do povo brasileiro.

Para finalizar, deixo vocês com o Coral Cidade do Sol, de Macaé (RJ), numa gravação em home office, nos tempos da pandemia de COVID-19, em outubro de 2020. O lindo arranjo foi de Wilson dos Santos Souza (https://youtu.be/u9cMCbWV8nc). Ah, eu entrei em contato com a Rosani, que é coordenadora do coral e ela me autorizou a utilizar este áudio. Obrigado, Rosani e parabéns para todos do Coral Cidade do Sol.

Nós ficamos por aqui.

Fiquem todos em paz e até nosso próximo episódio.


Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page