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EPISÓDIO # 72 - UMA ESCALADA PARA ALÉM DO TOPO

  • Foto do escritor: Carlos A. Biella
    Carlos A. Biella
  • há 2 dias
  • 14 min de leitura



Uma Escalada Para Além do Topo.


Hoje iremos escalar um dos locais mais extremos e fascinantes do planeta. Vamos até a montanha mais alta da Terra, explorando os profundos territórios da alma humana, passando por uma grande tragédia que ali aconteceu. Quer saber mais, então, vem comigo e aproveite.

Saudações a todos. Este é o podcast Mundo Espiritual. Eu sou Carlos Biella e a produção, edição e a apresentação são minhas e a arte das capas dos episódios é feita pelo Hugo Biella.

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Aquela temporada de escalada, no mês de maio de 1996, nos trouxe uma grande lição, com o Monte Everest expondo toda a fragilidade do ser humano. Para muitos, aquela temporada foi uma catástrofe de decisões e erros logísticos.

Mas há algo que vibra entre o visível e o invisível: um choque silencioso entre o ego e a transcendência, entre a ambição desmedida e a pura humildade.

Você se arriscaria numa escalada ao topo do mundo?

Quem irá nos acompanhar nesta jornada será a obra Eine Alpensinfonie, um grande poema sinfônico que ilustra a escalada de uma montanha alpina, composto pelo alemão Richard Strauss, no início do Século XX, aqui com a Frankfurt Radio Symphony, sob a regência do maestro Andrés Orozco-Estrada.

Mas de iniciar nossa escalada, vamos ouvir Resham Firiri, canção folclórica tradicional nepalesa, frequentemente cantada por pastores e pelo povo Sherpa nos caminhos do vale que levam até o Monte Everest. https://youtu.be/2cVbn190ZXw

Muito antes de se transformar em um destino turístico cobiçado, o Monte Everest já era um altar, uma espécie de divindade viva. Situado na cadeia de montanhas do Himalaia, localizado na fronteira entre o Nepal e o Tibet, o Everest é o ponto mais alto do nosso planeta, com quase 8.850 metros acima do nível do mar.

O nome "Everest" foi dado em homenagem a Sir George Everest, topógrafo britânico membro da Real Sociedade Geográfica do Reino Unido. Em 1856, o sucessor de Everest, Andrew Scott Waugh, após levantamentos que confirmaram ser aquele o pico mais elevado do planeta, nomeou-o em homenagem a Everest. Os cálculos que se referem à altura da montanha foram feitos pelo matemático indiano Radhanath Sikdar. Antes de ser batizado como Everest, a montanha era conhecida pelos britânicos como Pico XV.

No Nepal, é chamada de Sagarmatha, A Testa do Céu. Já no Tibete, é conhecida por Chomolungma, A Deusa Mãe do Mundo.

Para os povos do Himalaia, o Everest não é apenas uma montanha. É um ser. Uma presença que exige respeito e pureza de intenção.

Os primeiros que atingiram seu topo foram o montanhista neozelandês Edmund Hillary e o guia sherpa Tenzing Norgay, em 29 de maio de 1953.

Dificilmente se consegue sucesso na escalada, se não for com ajuda dos sherpas, os conhecidos “guardiões da montanha”. Os sherpas são um grupo étnico originário do leste do Nepal, mas com laços culturais no Tibete, que migraram para as regiões do Himalaia há centenas de anos.

Eles desenvolveram uma notável adaptação genética à vida em grandes altitudes, com seu corpo sendo excepcionalmente eficiente no uso de oxigênio em ambientes com ar rarefeito, o que lhes permite carregar cargas pesadas onde a maioria das pessoas tem grande dificuldade.

Graças a isso, os sherpas são essenciais para as expedições comerciais, atuando como guias, cozinheiros, carregadores de bagagem e são cruciais na montagem de acampamentos e fixação das cordas que tornam a rota mais segura.

Sua fé no Budismo Tibetano influencia profundamente sua relação com as montanhas, vistas por eles como divindades. A escalada é uma profissão necessária, mas sempre tratada com respeito.

Para os sherpas e outros moradores das regiões do Himalaia, o Everest é mais do que uma atração turística; é um local profundamente sagrado. A montanha é venerada, e os alpinistas geralmente participam de uma cerimônia budista chamada Puja, onde se pede permissão e proteção aos deuses da montanha antes da escalada, reconhecendo que pisar no cume é um ato de violência contra a montanha sagrada.

E assim muitos alpinistas foram tentando e vários alcançaram o topo do mundo, depois daqueles primeiros homens em 1953.

Acontece que nos anos 1990, algo mudou. O sagrado virou comércio. A montanha virou um troféu de luxo e o montanhismo de elite deu espaço às expedições comerciais. Guias experientes começaram a vender o topo do mundo para clientes ricos. Pessoas que pagavam pequenas fortunas para tentar pisar no ponto mais alto da Terra.

Vejam bem, o custo médio para uma escalada no monte Everest fica entre 35 mil e 150 mil dólares.

Naquele ano de 1996, duas grandes equipes lideravam essa febre de escalada do Everest: a Adventure Consultants, do neozelandês Rob Hall, e a Mountain Madness, do americano Scott Fischer. Ambos eram líderes brilhantes, carismáticos e de altíssimo nível. Contavam com sherpas dedicados e clientes motivados por buscas existenciais, vaidade ou superação. Entre os clientes que compunham a equipe de Rob Hall, estava o jornalista Jon Krakauer, enviado para relatar essa nova era de turismo de grande altitude.

Tanto Hall quanto Fischer eram guias respeitados e muito experientes. Mas havia um problema invisível que vinha crescendo em volta daquela montanha: a grande pressão comercial.

Ora, quando alguém paga uma fortuna para alcançar o topo do Everest, cria-se uma expectativa psicológica bem perigosa e desistir passa a ser encarado como fracasso. E foi exatamente isso que começou a alimentar os erros daquele trágico dia.

Passava da meia noite do dia 10 de maio de 1996. No escuro frio da noite, as equipes de alpinistas iniciaram o ataque ao cume a partir do Acampamento IV, buscando atingir o topo do mundo, a 8.848 metros de altitude. O acampamento IV, último antes do cume, fica a 7.900 metros de altitude.

Normalmente, acima de 7.500 metros de altitude, entramos na chamada "Zona da Morte". O ar fica tão rarefeito que cada passo é dado com enorme dificuldade. É um lugar onde o corpo humano recebe apenas um terço do oxigênio disponível ao nível do mar. A mente começa a falhar. O julgamento se distorce. E a morte ronda quem nessa região se arrisca.

Aqui o risco de doenças graves como os edemas cerebral e pulmonar de altitude, aumenta drasticamente, levando à confusão mental, perda de coordenação e, muitas vezes, à morte.

Nessa região, as temperaturas caem para níveis extremos e o vento é brutal, o que faz com que o esforço físico para mover-se seja imenso. Qualquer parte do corpo que fique muito tempo exposta a esse frio extremo, pode se necrosar.

O corpo humano não consegue sobreviver por muito tempo nessa altitude; é uma corrida contra o tempo para chegar ao cume e descer o mais rápido possível. Qualquer atraso, como mau tempo ou congestionamento de alpinistas, aumenta exponencialmente o risco de morte.

Na chamada Zona da Morte, o tempo não é apenas tempo, ele determina o limite exato entre a vida e a morte de quem ali se arrisca.

Infelizmente, naquele dia, foi justamente ali que uma sucessão de erros e falhas logísticas pavimentou o caminho para o desastre.

Houve falha das equipes responsáveis na instalação das cordas que servem de guias, o que provocou enormes congestionamentos humanos em trechos perigosos, roubando dos alpinistas horas cruciais de oxigênio e energia.

Os guias já haviam avisado sobre a “regra de ouro” que teria que ser seguida. Uma regra inegociável que dizia que quem não alcançasse o cume até as 14h deveria dar meia-volta imediatamente para conseguir descer em segurança antes do anoitecer. Mas o ego e o apelo do topo falaram mais alto. Dominados pela obsessão do sucesso, guias e clientes ignoraram o relógio e muitos atingiram o cume bem depois do horário limite.

O apelo comercial acabou colocando na montanha clientes com pouca experiência de sobrevivência extrema. Confiando cegamente no que haviam pago, muitos esqueceram que, acima de 8.000 metros, ninguém pode carregar ninguém nas costas por muito tempo.

É literalmente cada um por si.

Já no meio da tarde, o Everest mudou de humor e a montanha cobrou sua conta. Uma tempestade avassaladora e inesperada atingiu as encostas superiores do Everest. A visibilidade caiu para zero; o frio despencou para marcas extremas. Era tão frio que queimava. O oxigênio engarrafado acabou. E o caos se instalou.

Foi nesse cenário de horror que a tragédia esculpiu histórias de profundo heroísmo e compaixão. O guia Rob Hall recusou-se a abandonar seu cliente Doug Hansen, um carteiro que queria provar que uma pessoa comum poderia chegar ao topo do mundo. Hansen estava completamente exausto e não conseguia se mover. Hall ficou com ele. Foi uma decisão profundamente humana… e fatal.

Preso no frio congelante, isolado pela nevasca, ele conseguiu fazer um último contato via rádio com sua esposa que estava grávida, na Nova Zelândia. Suas últimas palavras foram um eco de serenidade e amor em meio à fúria do vento e do frio congelante: "Não se preocupe. Eu estou confortável. Durma tranquila, meu amor." Ele nunca mais voltou.

Em outro ponto, Scott Fischer, enfraquecido pelo mal de altitude extremo, colapsou e faleceu na encosta da montanha.

Naquela noite, o espírito da montanha levou consigo oito vidas de uma vez. Ao todo, na temporada inteira de escaladas, de 1996, 15 mortes foram computadas.

Em meio ao caos que se instalou naquele dia, surgiu a figura mística e controversa de Anatoli Boukreev, um lendário guia russo. Criticado por Jon Krakauer em seu livro, por escalar sem oxigênio suplementar e ter descido à frente dos clientes, Boukreev justificou sua filosofia de escalada de alta montanha: ele desceu antes exatamente para se reidratar, poupar forças e servir como uma célula de resgate pronta para a crise que ele sabia que viria. E ele cumpriu sua promessa. Sozinho, na escuridão da tempestade com visibilidade zero, Boukreev saiu repetidas vezes do Acampamento IV para a nevasca e salvou a vida de três clientes que estavam condenados à morte.

Para além da apuração dos fatos jornalísticos, a tragédia de 1996 nos deixa um grande ensinamento. Em 2016, três corpos preservados foram encontrados em um abrigo improvisado, a cerca de 8.200 metros de altitude. Tratava-se dos três membros da família japonesa, Yamamoto, que haviam desaparecido na montanha em 1988. Seus diários revelaram que eles foram apanhados exatamente pelo mesmo tipo de tempestade súbita que matou os 8 montanhistas em 1996. Para muitos montanhistas, o achado foi visto como um aviso místico da própria montanha: o Everest não perdoa o esquecimento de suas leis.

Ele nos ensina que, em altitudes extremas ou nas profundezas da nossa própria vida, a decisão de desistir e recuar não é sinal de fracasso; é a maior prova de sabedoria, discernimento e profundo respeito pela vida.

Como saber quantas das decisões fatais foram resultado da ambição e quantas foram resultado de cérebros privados de oxigênio?

Ao lermos sobre a história, vemos um profundo dilema moral, com pessoas passando por colegas moribundos, incapazes de ajudar devido à sua própria luta pela sobrevivência e às limitações logísticas da montanha.

Beck Weathers, um médico patologista do Texas, foi dado como morto por montanhistas que estavam descendo para o acampamento base. Encontrado moribundo por alguns, foi abandonado. Desafiando a lógica, ele sobreviveu a uma noite com temperaturas abaixo de 40°C e apareceu, sozinho e cambaleando, no acampamento, para assombro dos que ali se encontravam. Weathers, durante a subida, foi acometido pela ceratite actínica (uma lesão ocular causada pela exposição à radiação ultravioleta em grandes altitudes), que o deixou praticamente cego. Aconselhado a ficar e esperar para descer com sua equipe, que continuou a escalada, ele foi abandonado, já quase congelado, pelos que passaram por ele, pois acreditavam ser impossível sua sobrevivência. E assim, sem abrigo, sem oxigênio suplementar e com o corpo praticamente em hipotermia severa, ele passou a noite.

No acampamento base, contrariando todas as probabilidades, Weathers surgiu da escuridão. Foi colocado em sua barraca para se restabelecer. No entanto, uma nevasca derrubou sua barraca e novamente Weathers foi dado como morto. Mas, ele conseguiu sobreviver, mas essa aventura lhe custou parte do braço direito, alguns dedos da mão esquerda, além de várias cirurgias reconstrutivas, especialmente em seu nariz que foi totalmente necrosado. Em seu livro, Deixado para morrer, ele conta toda sua luta pela sobrevivência.

Pois bem, essa tragédia nos força a olhar para o espelho da nossa própria ambição.

Afinal, o que é o dever moral quando a sua própria vida está em risco iminente?

Haveria alguma ética da sobrevivência?

Dentro da filosofia existe um conceito, chamado Conceito de Hubris, termo derivado do grego antigo que descreve a arrogância excessiva, a presunção e a desobediência em relação aos deuses. Neste caso, a arrogância de se desafiar a Deusa Mãe do Mundo, de acreditar que a tecnologia e o dinheiro podem superar os limites impostos pela natureza. Ora, a montanha não se importa com os seus objetivos, e ela, a montanha é o último juiz. Ela impõe limites que a tecnologia moderna ainda não conseguiu derrubar.

E o Everest parece sempre lembrar ao ser humano que não importa o quanto ele evolua tecnologicamente…a natureza continua sendo soberana.

Esse fato ocorrido em 1996 é um lembrete de que é preciso aprender a ouvir a montanha, mesmo que, muitas vezes, ela fale através do silêncio.

Como entendem os nepaleses e tibetanos, montanhas seriam seres vivos, entidades sagradas que testam e transformam quem as visita. Deve ser por isso que muitos sobreviventes de eventos relatam experiências quase místicas, como a sensação de presença, a sensação de guias invisíveis.

A montanha nos ensina sobre a impermanência. Ela nos lembra que tudo é transitório. O tempo muda. O caminho muda. A vida muda. E cada passo carrega uma escolha existencial.

Eu sou um tanto fascinado por montanhas, em especial pelo Everest, apesar de o mais perto que cheguei dele foi em 2025, durante uma viagem à China, quando passamos sobre o Himalaia.

Existem muitos livros e filmes sobre essa tragédia, como No Ar Rarefeito, de Jon Krakauer, que traz o relato do jornalista que estava na expedição de Rob Hall. A escalada, de Anatoli Boukreev, trazendo a perspectiva do guia russo que realizou resgates heroicos durante a tempestade. Também o livro Alto Risco, de David Breashears, líder e diretor da expedição Everest Imax. E, ainda o livro Deixado para morrer, de Beck Weathers, que citei a pouco.

Eu tenho os três primeiros livros, além de Everest, diário de uma vitória, livro do alpinista brasileiro Waldemar Niclevicz, primeiro brasileiro a escalar o Everest e que tive o prazer de conhecer pessoalmente em São Paulo na Adventure Sports Fair, em 2002.

Entre os filmes temos Everest, de 2015, baseado nos eventos reais e nos relatos de Krakauer e Weathers e alguns documentários sobre esse acontecimento.

Ah, a imagem que está na capa deste nosso episódio não é do Everest. Não sei se vocês que me acompanham sabem, mas, todas as capas dos episódios do podcast Mundo Espiritual são feitas com fotos de minha autoria. Assim, como eu disse anteriormente, o mais perto que cheguei do Everest foi num voo que passou sobre o Himalaia.

A foto usada para a capa deste episódio é do Matterhorn, montanha que fica na região de Zermatt, na Suíça, onde estive em 2018.

Fugindo um pouco do Everest, mas continuando no mundo das altas montanhas, lembro que no último dia 30 de julho deste ano de 2026, 10 alpinistas morreram no Broad Peak, montanha no Paquistão com mais de 8000 metros de altitude, devido a uma avalanche. Entre os mortos estava um alpinista britânico-nepalês de 43 anos, o sherpa Nirmal Purja, conhecido no mundo do alpinismo de altas montanhas como Nimsday. Em 2019 ele conseguiu um feito que entrou para a história do alpinismo mundial. No mundo existe 14 montanhas com mais de 8.000 metros de altitude. Até então, o tempo mínimo que alguém conseguira escalar todas as 14 montanhas, era de 7 anos. Nimsday conseguiu escalar as 14 montanhas em pouco mais de 6 meses.

Para quem se interessar, tem um documentário sobre a vida de Nirmal Purja e seu grande feito, na Netflix, chamado “14 montanhas: nada é impossível”. Vale a pena, para quem, como eu, gosta do assunto.

Bem, eu disse que os primeiros a alcançarem o topo do Everest, teriam sido Hillary e Norgay, no entanto, existe uma outra possibilidade de alguém ter alcançado o topo do mundo quase 30 anos antes.

Em 1924, o britânico George Mallory e seu amigo Andrew Irvine buscaram aquilo que ninguém ainda havia conseguido: atingir o topo do Everest. Aqueles eram tempos bem diferentes para o alpinismo de grandes altitudes. Roupas bem mais pesadas, oxigênio suplementar bem mais rudimentar e mapas incompletos.

Segundo um dos membros daquela expedição, Noel Odell, a última vez que a dupla foi avistada, teria sido próximo às 13:00 h daquele dia 8 de junho de 1924, quando caminhavam em direção ao topo do monte. O problema é que os dois não foram mais vistos e não existem relatos se eles realmente atingiram o pico. Ambos desapareceram.

Por décadas, essa dúvida pairou no ar rarefeito da história do Everest. Afinal, ambos teriam morrido subindo ao topo ou na descida, após atingirem o topo?

Caso realmente ambos tenham chegado ao topo, seriam os primeiros a alcançar tal feito, quase 30 anos antes de Hillary e Norgay.

O Everest se calou e não quis revelar o que realmente aconteceu.

Ah, só a título de informação. É muito difícil o resgate dos corpos, especialmente quando se encontram acima dos 8000 metros de altitude. É por isso que calcula-se que, atualmente, existam mais de 200 corpos congelados na zona da morte do Everest.

Em 1999, 75 anos depois, uma expedição norte-americana juntamente com a BBC, buscou encontrar os corpos dos dois alpinistas. A expedição esperava encontrar, também, as câmeras fotográficas dos alpinistas, o que poderia explicar muita coisa. Assim, no dia 1º de maio de 1999, Conrad Anker, um dos alpinistas da expedição notou uma mancha branca em meio aos pedaços de rocha e gelo. Era o corpo de George Mallory, que estava em bom estado de conservação graças às baixas temperaturas. “Ele parecia estar em paz consigo”, disse Anker. Ainda tinha parte do seu equipamento e em suas roupas havia indicação de seu nome. Encontraram, também, alguns objetos pessoais, mas não a câmera que poderia ter resolvido esse grande mistério da história do Everest.

Um detalhe interessante é que seus óculos de neve estavam em seu bolso, o que poderia indicar que ele poderia ter morrido durante a noite, provavelmente durante a descida do topo.

De acordo com Frances Clare Mallory, filha de George, seu pai sempre levou uma foto da esposa quando escalava e havia prometido deixar no topo, caso o alcançasse. Essa foto não foi encontrada com os pertences de Mallory. Assim, para muitos, a ausência da foto significaria que ele havia conseguido atingir o topo e lá deixado a foto da esposa.

Mallory buscou alcançar o topo que, naquela época, pertenceria mais aos deuses do que aos homens e acabou se tornando uma representação extrema do desejo humano: alcançar um objetivo mesmo sem garantia alguma de que conseguiria e de que viveria para contar.

Certa vez em uma conferência, pressionado por repórteres sobre o porquê querer escalar o Everest, ele respondeu: Porque ele está lá!

Entre os tibetanos, acredita-se que algumas montanhas testam não o corpo, mas o espírito.

E essa tragédia nos deixou perguntas que continuam ecoando até hoje: afinal, até onde vale a pena ir para realizar um sonho? Até onde a ambição pode nos levar?

No Everest, muitos morreram tentando tocar o céu.

Este é o podcast Mundo Espiritual e a produção, edição e a apresentação são minhas, Carlos Biella e o Hugo Biella é que faz a arte das capas dos episódios.

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Caso se interesse, tenho minhas palestras e outros vídeos em meu canal no YouTube. Procure por Carlos Biella, inscreva-se no canal e nos acompanhe. O link está na transcrição do episódio (https://www.youtube.com/channel/UCMpcMSh6nbb9LtujlgfabOA).

Bem, tanto a tragédia de 1996, quanto essa, mais recente, no Broad Peak, nos ensinam, ao menos 5 lições.

Primeiro, que devemos ser humildes, principalmente frente a natureza. Ela não é inimiga, nem obstáculo. É mestra. E sempre devemos reverenciar um mestre.

Segundo, que o ego é o maior perigo em grandes altitudes.

Terceiro, o valor da liderança compassiva. Rob Hall escolheu não abandonar um cliente e sua decisão é lembrada como trágica, sim…, mas também como profundamente humana.

Quarto, desistir não é fracassar. É, muitas vezes, manter-se vivo.

Quinto, cada um de nós carrega sua própria montanha, com medos, ambições, dores e conflitos internos. Escalá-la exige discernimento, silêncio, presença e, acima de tudo, a humildade de escutar quando a vida nos pede para parar.

Talvez a maior lição que o Everest e outras grandes montanhas nos tenham dado seja justamente aprender a voltar. A verdadeira escalada talvez não aconteça na montanha, mas dentro de nós mesmos.

Para encerrar, uma frase atribuída a Anatoli Boukreev, que traz uma profunda reflexão sobre a dimensão espiritual envolvida na atividade de escalada de altas montanhas: "As montanhas não são estádios onde satisfazemos nossas ambições, mas sim catedrais onde praticamos a nossa religião”.

Fiquem todos em paz e até nosso próximo episódio.


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