MÚSICA DA ALMA # 20 - CAJUÍNA
- Carlos A. Biella

- há 3 dias
- 6 min de leitura

Cajuína.
Nesta música, Caetano Veloso explora questões existenciais e transforma uma experiência de luto em uma reflexão sensível na forma de uma linda canção.
Quer saber mais? Então, vem comigo.
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Sejam todos muito bem-vindos, este é o podcast Música da alma. Um podcast dentro do universo Mundo Espiritual.
Eu sou Carlos Biella e a produção, edição e apresentação são minhas e a parte gráfica fica por conta do Hugo Biella.
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Talvez Cajuína seja uma das canções mais etéreas e espirituais da música brasileira. Um encontro entre a finitude da vida e a permanência da poesia.
Existem momentos em que olhamos a vida e ela nos olha de volta com uma nitidez assustadora e um desses momentos aconteceu em Teresina, no Piauí, anos após a morte precoce do poeta Torquato Neto.
Hoje, no Música da Alma, vamos mergulhar na história de uma rosa, uma lágrima e uma bebida cor de âmbar, a Cajuína.
E começo falando de Torquato Pereira de Araújo Neto ou simplesmente Torquato Neto. Ele nasceu em Teresina, em 1944. Único filho do defensor público Heli da Rocha Nunes e da professora primária Maria Salomé da Cunha Araújo. Foi poeta, compositor, jornalista, ator e cineasta.
Em 1960, com 16 anos, mudou-se para Salvador e estudou com Gilberto Gil, no Colégio Marista Nossa Senhora da Vitória. Em Salvador conheceu outros nomes da cena artística baiana e nacional, como Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia, sendo, inclusive assistente no filme Barravento, de Glauber Rocha.
Foi ele quem oficializou o Tropicalismo ou a Tropicália, movimento cultural brasileiro, que trazia uma mistura de sons, como a Bossa Nova, o rock e ritmos regionais, juntamente com Tom Zé, Capinam, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Os Mutantes. A tropicália foi um movimento que visava, entre outras coisas, combater a ditadura usando a arte.
Acabou tendo muitos de seus textos transformados em músicas, como Go Back, poema musicado por Sergio Brito e gravado pelos Titãs, em 1988 (https://youtu.be/ONigKf_LO_A).
Torquato era letrista e crítico de música em jornais pela cidade, sendo que o jornalismo acabou por levá-lo para o Rio de Janeiro.
A dureza do regime militar, no final dos anos 1960 e a prisão de vários artistas acabou por levá-lo a se exilar nos Estados Unidos e depois em Londres.
Retornou para o Brasil no início dos anos 1970, mas o sentimento de alienação causado pela política, os fantasmas da truculência daquela época e a constante censura, não os deixaram em paz.
Passou por internações para tratar do alcoolismo e acabou rompendo os laços de várias amizades.
Torquato Neto expressava sua angústia e descontentamento com a sociedade brasileira através de cartas. Numa delas, de julho de 1971, para o pintor brasileiro Hélio Oiticica, ele escreveu:
“O chato, Hélio, aqui, é que ninguém mais tem opinião sobre coisa alguma. […] e o que eu chamo de conformismo geral é isso mesmo, a burrice, a queimação de fumo o dia inteiro, como se isso fosse curtição, aqui é escapismo [...] poesia sem poesia, papo furado, ninguém está em jogo, uma droga. Tudo parado, odeio”.
No dia 10 de novembro de 1972, um dia após completar 28 anos, Torquato Neto cometeu suicídio em sua casa. Cogitou-se que ele teria sido assassinado pelo regime militar, mas isso acabou sendo descartado.
Naquela madrugada, enquanto sua esposa dormia, Torquato trancou-se no banheiro de sua casa e abriu as torneiras de gás. Ao amanhecer, o Anjo Torto da Tropicália foi encontrado morto.
O escritor Paulo Andrade no livro Torquato Neto: uma poética de estilhaços, lançado em 2002, escreveu: “a fatalidade de uma vida dilacerada ficou para sempre inscrita na materialidade radical de seus poemas, especialmente no último texto, escrito à espera da morte num caderno espiral, encontrado ao lado do seu corpo”. Em seguida, Paulo Andrade transcreve o texto deixado por Torquato Neto:
“FICO. Não consigo acompanhar a marcha do progresso. De minha mulher eu sou uma grande múmia que só pensa em múmias mesmo vivas e lindas feito a minha mulher na sua louca disparada para o progresso. Tenho saudades como os cariocas do tempo em que eu me sentia e achava que era um guia de cego. Depois começaram a ver, e, enquanto me contorcia de dores, o cacho de banana caía. De modo Q FICO sossegado por aqui mesmo enquanto dure. Ana é uma SANTA de véu e grinalda com um palhaço empacotado do lado. Não acredito em amor de múmias, e é por isso que eu FICO e vou ficando por causa deste amor. Pra mim chega! Vocês aí, peço o favor de não sacudirem demais o Thiago. Ele pode acordar”.
Ana era sua esposa e Thiago seu filho, então com dois anos de idade.
Mas, qual a ligação da história de Torquato Neto com a música Cajuína?
Bem, não foi o suicídio do amigo que levou Caetano a compor a música, que surgiu algum tempo depois!
Caetano estava em Teresina para um show. Ele retornava pela primeira vez à cidade onde havia nascido seu grande amigo, Torquato Neto. Nessa ocasião, ele recebeu a visita do pai de Torquato, Dr. Heli.
Pois então, a linda canção Cajuína, surgiu exatamente do encontro de Caetano Veloso com Dr. Heli.
Caetano conta que o pai de Torquato foi visitá-lo no hotel onde ele se hospedara em Teresina e...
Bem, é melhor deixar o próprio Caetano contar a história.
E assim foi composta a canção Cajuína, gravada em 1979 para o disco Cinema Transcendental.
É uma canção com oito versos, num xote até certo ponto melancólico, falando sobre a efemeridade da vida, suas belezas e mistérios.
Fala aí, Caetano!
Existirmos: A que será que se destina?
Caetano acabou criando um poema filosófico, trazendo logo no início, uma reflexão, que tem tudo a ver com o questionamento que fazemos quando se perde alguém.
A música faz um questionamento destinado não para Torquato e sim para seu pai Dr. Heli, que estava em luto.
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Caetano está se referindo diretamente ao pai de Torquato, que lhe entregou uma pequena rosa retirada do jardim de sua casa.
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Caetano coloca o Dr. Heli como esse homem lindo, cheio de doçura, que agora carrega a sina de ter perdido um filho (um menino infeliz). Ou, então, podemos entender que Caetano se refere a ele mesmo como sendo o menino que se encontrava infeliz e foi consolado pelo pai de seu amigo.
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Seguem as reflexões sobre o sofrer e o chorar naquela situação, mas, alertando que a lágrima de um nordestino não se turvaria, não se escureceria. Aqui temos a resiliência e a força do povo nordestino diante das adversidades.
Apenas a matéria vida era tão fina
A vida é composta de uma matéria fina, valiosa, embora frágil e se vai, como a vida de Torquato
E éramos olharmo-nos, intacta retina
Caetano pode estar se referindo a estar olho no olho com Dr. Heli, a sós, em sintonia um com outro.
A cajuína cristalina em Teresina
A cristalinidade da bebida oferecida pelo pai de Torquato à Caetano, indicaria a pureza daquele homem.
Caetano Veloso compôs uma música que nos chama a atenção para alguns detalhes.
Vejam bem, Cajuína é um poema de 8 versos alexandrinos, ou seja, dodecassílabos, com 12 sílabas poéticas, com todos os versos rimando.
Existirmos: A que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos, intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina
Enfim, Caetano fez uma obra-prima, numa letra tão pequena.
A rosa pequenina e a cajuína cristalina, tornam-se símbolo da tentativa de se consolar e da beleza singela que pode ser encontrada em um momento de luto, como o que aconteceu no encontro de Caetano com o pai de Torquato Neto.
Sem dúvida, é uma linda música.
Nós vamos ficando por aqui.
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Música da Alma, um podcast para te provocar emoções.
Para finalizar, um resumo, do surgimento desta linda canção.
Então ficamos só ele e eu na casa. Ele não dizia quase nada. Tirou uma rosa-menina do jardim e me deu. Ficamos vendo muitas fotografias de Torquato pelas paredes da casa. El serviu cajuína para nós dois. E bebemos lentamente. Eu chorava o tempo todo, como não chorei no dia da morte de Torquato. Mas eu não estava nem triste nem amargo. Era um sentimento terno e bom, amoroso, dirigido a Dr. Heli, a Torquato, à vida. Mas era intenso, por isso, chorei.
Assim, no dia seguinte, já na próxima cidade, nascia Cajuína.
Fiquem todos em paz e até nosso próximo episódio.






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