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EPISÓDIO # 73 - SONHOS NÃO ENVELHECEM

Foto do escritor: Carlos A. Biella
Carlos A. Biella
há 2 dias
10 min de leitura



Sonhos Não Envelhecem.


Interessante é a vida. Ela passa e o tempo, voa. O tempo não espera por ninguém.

Ainda ontem eu era jovem, cheio de energia, de sonhos e planos. O futuro era algo logo ali na frente.

Hoje, olhando para trás, vejo o quanto que muita coisa mudou. Muitos sonhos e planos se perderam. A energia, então, bem, deixa pra lá.

O tempo passou e continua a passar.

E ele é implacável. O tempo, passa para todos nós. Não importa o sucesso, o dinheiro ou o esforço para conter a idade; o peso do tempo chega para todos. É exatamente por isso que cada instante ganha tanto valor.

Por isso, viver exige urgência. É preciso viver o agora.

O passado...o passado ficou perdido na poeira do tempo.

Oh! Que saudades que tenho da aurora da minha vida..., da minha infância querida, que os anos não trazem mais, como disse Cassimiro de Abreu no poema “Meus oito anos”.

Pois é, lembranças que trago na memória e que teimam em ficar me cutucando.

Lembranças que rondam meus pensamentos e me fazem, muitas vezes, tentar voltar no tempo.

Será que as coisas não mudam?

Será que somente nós é que mudamos?

Lembro de quando regressei para alguns lugares onde vivi e lembro que senti exatamente como diz aquela música...

Tudo estava igual como era antes, quase nada se modificou, acho que só eu mesmo mudei...

Acho que só eu mesmo mudei. E como mudei. O tempo, muda quem somos.

Não conseguimos negociar com ele.

Tempo por que passas tão ligeiro!

Ainda ontem eu era uma criança, brincando num enorme quintal de minha casa. Construindo estradas na terra, debaixo da mangueira, por onde meus carrinhos andavam por todo lado.

Quanto brinquei naquele espaço que depois percebi nem era tão grande.

Doces dias de colégio, brincadeiras com os amigos. Jogando bola na rua e futebol de botão em minha casa.

Amizades que foram sendo construídas. Laços que se apertaram. Doces lembranças que hoje teimam em vagar por minha mente.

Violão e cantoria na praça.

Os primeiros amores, os primeiros beijos.

Os embalos de sábado à noite.

Tanta vida pela frente, tantos anos que viriam, trazendo com eles outros caminhos, bem diferentes daqueles que sonhava naqueles tempos.


Meus Deus, tudo passou tão rápido e parece que minha mente não acompanhou.

Mas, quem é esse senhor que está me olhando no espelho?

Quantos livros eu já li?

Quantas músicas já ouvi?

Quantos filmes já assisti?

Não tenho a mínima ideia! O que sei é muitos livros, músicas e filmes, hoje me fazem caminhar pelo tempo, buscando lembranças de momentos nos quais vivia enquanto lia, ouvia ou assistia a vida passar e eu não perceber.

Deixar a casa de meus pais, deixar os amigos e partir para outros ares.

Novos amigos, novos conhecimentos, novas lembranças.

Saudades!!!!

Saudades que batem fundo na mente e na alma.

Amores que iniciaram e findaram.

Amor que iniciou e permanece até hoje. Deste, espero não esquecer. Nosso primeiro beijo, a estrela cadente, uma canção que insiste em me perseguir, mas somente você sabe cantar.

A construção de uma nova vida a dois, a três, a quatro, a cinco e a seis!

Assim, cada filho que veio em nossa vida, carregando histórias plantadas bem fundo na alma, me fazem querer voltar no tempo.

Saudades!

Quanta coisa tenho guardada em minhas memórias.

Queria entrar em minha mente, na sala de arquivos de memória, acender uma luminária, sentar-me numa poltrona, com uma garrafa de café ou seria melhor de uísque? E ficar ali, horas e horas, buscando momentos que ficaram perdidos na poeira do tempo.

Como é engraçada minha memória. Me lembro de coisas nem sei o porquê.

Já outras coisas, busco lembrar, mas, por mais que me esforce, não consigo me lembrar direito.

Saudades!!!

Acho que realmente estou ficando velho.

Tem momentos que me pego pensando no que passou e choro. Choro, pois, sei que não mais conseguirei viver o que já vivi. Não mais conseguirei sentir o que se passou.

Sentar-me sobre o carro, olhando estrelas...

Elas ainda estão lá em cima, a grande maioria no mesmo lugar.

Eu que me mudei minha perspectiva.

Tem horas que o peito aperta.

Tem momentos em que dá vontade de buscar viver tudo novamente. Mas, sei que isto é impossível. Somente nos sonhos e na lembrança é que se pode vivenciar o passado.

Então, hoje ando devagar e sigo em frente. Ou será que vou tocando em frente?

Olho para minhas mãos. Elas estão diferentes, cheias de marcas que o tempo foi deixando.

Olho para o espelho e novamente aquele senhor me devolve o olhar.

Tempo, tempo. Que doce e amargo mistério é você!

Doces lembranças guardadas em locais que, muitas vezes, deixamos de procurar ou buscamos e não mais encontramos.

É, eu...

Devia ter amado mais

Ter chorado mais

Ter visto o sol nascer

Devia ter arriscado mais

E até errado mais

Ter feito o que eu queria fazer...

Tempo!

Parece que à medida que envelhecemos, o tempo começa a passar mais rápido, não é mesmo?

O que acontece é que, ao sermos jovens, tem muitas coisas que vamos aprendendo e muitas experiências que vivenciamos. Tudo parece ser novidade.

Quando eu era criança, tudo era novo e provavelmente meu cérebro precisou de muito esforço cognitivo para processar tudo aquilo.

Me lembro de como eu adorava ler enciclopédias. Sim, enciclopédias! Eu viajava em todo aquele conhecimento.

Sentava-me no sofá de casa ou deitava-me em minha cama e voava para muitos lugares, somente usando minha imaginação.

É, naquele tempo, nem se sonhava em celular, internet e redes sociais. A imaginação nos levava onde quer que pensássemos.

A vida era diferente, talvez por isso parecia que o tempo passava mais devagar.

É provável que, quando somos crianças e jovens, prestemos mais atenção a algumas coisas, muitas vezes por ainda não termos certeza do que seja importante ou não. Isso faz com que prestemos atenção a quase tudo. Provavelmente isso tudo faça com que a percepção de tempo seja diferente para crianças e jovens, quando comparadas à percepção de tempo de um idoso.

Acontece que, conforme envelhecemos, vamos desenvolvendo uma compreensão muito mais apurada do mundo.

Muitas coisas acabam ficando quase que automáticas.

Muitas outras se tornam mais previsíveis, já que com o avançar da idade, vamos aprendendo cada vez mais como o mundo funciona.

Com isso, aprendemos a destinar mais atenção ao que nos é importante, deixando de destinar tanta atenção ao resto.

Com o passar dos anos, parece que há menos novidades em nossas experiências de vida, o que nos dá a sensação de que menos coisas acontecem, e isso pode dar a impressão de que o tempo está passando mais rápido.

No entanto, quanto mais ocupamos nossa mente, realmente o tempo parece passar mais rápido não acham?

Interessante é que, filosoficamente, o tempo é um conceito muito complexo e tem sido objeto de debate e reflexão ao longo da nossa história neste planeta. Alguns filósofos entendem o tempo como uma sequência de eventos em um contínuo linear. Já outros argumentam que o tempo é uma ilusão e que apenas existiria o presente. O mais complicado é que o presente, se pararmos para pensar friamente, também não existe, pois o momento do agora, já se torna passado.

Aristóteles, filósofo grego, dizia que o presente não pode ser considerado como se existisse no tempo, uma vez que está em contínuo movimento. Assim, tudo o que se faz no presente, se transforma, imediatamente, em passado. Complicado, não é?

Um outro filósofo, o alemão Martin Heidegger, dizia ser o tempo uma sucessão contínua de “agoras”, ou seja, uma sequência constante do presente. Para ele, o ser humano é quem sente que o tempo passa e não para. Nós é que experimentamos a passagem do tempo. Assim, considerando a condição mortal do indivíduo, a passagem do tempo tem seus efeitos sobre o homem e o resultado é a morte.

Tempo!

Ora, discutimos tanto sobre o tempo e não conseguimos ver, tocar ou sentir o cheiro do tempo. O tempo, apenas passa.

Mas, nós vemos os ponteiros do relógio avançarem, não é? Isso não seria uma forma de perceber o tempo?

Um artigo que encontrei, tempos atrás, dizia que nós percebemos a duração do tempo e destacava que a maneira que isso ocorre, associa-se à ideia de que passado e futuro estejam em nossa mente. Ou seja, somente temos memórias do passado e possíveis ideias para o futuro.

Tempo!

Não sei ainda quanto tempo tenho nesta vida.

Mas sei que, tenho aquela sensação de que...

Devia ter complicado menos

Trabalhado menos

Ter visto o sol se pôr

O tempo é assim, com um dia após o outro que nasce da escuridão para a luz e finaliza da luz para a escuridão.

Espero que minha escuridão ainda demore para chegar, porque, este sol se pondo!!! Cara, é tão lindo!

E quantas vezes eu parei para admirar um nascer ou um pôr do sol? Muito provavelmente menos do que realmente deveria ter visto.

Me venho a lembrança dos anos de juventude, do encontro com amigos para ver o sol se pôr na última rua da minha querida cidade em que nasci, especialmente nos dias em que estávamos de férias.

Poxa, agora, esse senhor aqui no espelho está sorrindo para mim!

Olho com mais paciência, apesar de que, o tempo parece levar a paciência embora, e vejo que este senhor que me olha está cheio de vida e de histórias.

Sim, isso mesmo. Cheio de histórias dentro dele.

Histórias de criança, de menino, de jovem, de adulto, de filho, de irmão, de amigo, de namorado, de esposo, de pai, de avô...fases de uma vida, cheia de sonhos, de projetos, de frustrações, de alegrias, de tristezas, de dores, de mágoas, de carinhos, de risos, de choros, de amores.

As vezes tenho a sensação que preciso voltar no tempo e viver novamente algumas destas histórias.

Mas, isso não é possível.

Por isso busco nas imagens, leituras e músicas, algo que possa me colocar no colo e me carregar entre suas asas, até o passado.

Aos poucos eu começo a sorrir para o senhor que me olha e sorri no espelho.

Ele me parece tão familiar!

Olho mais uma vez para ele e apago a luz.

No escuro, pego meu aparelho celular e coloco uma música...

Deixo meu corpo cair sobre a cama e fecho os olhos.

A música preenche tudo.

Viajo para o passado e me encontro com aquele jovem cheio de sonhos.

Olho para aquele jovem que fui um dia e começo a sorrir, aquele mesmo sorriso do senhor que me sorriu no espelho.

Pois é, um dia, olhamos para nossas fotos antigas com saudade.

Se tivermos uma vida longa, que ela seja bem aproveitada.

Se partirmos antes, que fiquem o amor e as boas memórias com quem viveu conosco.

Temos que aprender de uma vez por todas: não lutemos contra o tempo, agradeçamos por ele.

Cada marca na pele e cada fio de cabelo branco são verdadeiras medalhas de batalhas vencidas na vida.

No final, nossa maior vitória será olharmos para trás, sorrirmos e termos a certeza de que vivemos, erramos, aprendemos, mas demos o nosso melhor.

Procure amar mais, abraçar mais e perdoar mais.

Aproveite mais os momentos do presente.

Sorria e esteja perto de que realmente importa para você.

Faça o que te dê mais prazer. Cante, ria, dance, viaje, diga “eu te amo” para a pessoa amada.

E daí que já estamos velhos, idosos...poxa, ainda somos tão jovens, tão jovens...temos nosso próprio tempo!

Enfim, não gaste sua energia tentando parecer mais jovem.

Entenda que cada ruga é uma marca que o tempo deixou, como os círculos no interior de um tronco de árvore.

Aceite cada fase de sua vida e aproveite toda a beleza de cada uma dessas fases.

Existe, sim, beleza no envelhecer.

Não brigue com o tempo, agradeça por ele.

A maior vitória que a vida nos dá é poder olhar para trás, sorrir e dizer com o coração em paz: tempo, eu vivi, eu amei e fiz tudo da melhor maneira possível.

Enfim, você tem vivido ou apenas sobrevivido aos seus dias? Pense bem nisso!

Quando nossos dias viram mera repetição, a vida perde o brilho e a cor.

Ora, a arte de viver não ignora as cicatrizes, mas utiliza a sensibilidade para lapidar a alma.

Como escreveu Rubem Alves:

O tempo aparece como um fruto que vai sendo comido: é belo, é colorido, é perfumado. E, à medida que vai sendo comido, vai acabando. Vem a tristeza. O tempo da vida se marca por alegrias e tristezas. Há inícios e há fins. Tempus fugit; o tempo foge. Portanto, carpe diem: colha o dia como um fruto que amanhã estará podre.

O tempo passa muito rápido, então, viva intensamente cada momento de sua vida e procure ser mais feliz.

O tempo irá passar para todos nós. Um dia, quando menos percebermos, estaremos envelhecendo. Então, agradeça a Deus por poder envelhecer.

Afinal, envelhecer, não significa perder toda aquela simplicidade e espontaneidade que tínhamos quando éramos mais jovens.

Envelhecer é aprender a superar as responsabilidades sem nunca se desconectar da nossa criança que temos em nosso interior.

Aquela criança que ainda brinca, sonha e se encanta com a vida, independentemente de como ela é vivida.

Ah, aquele senhor que me sorri no espelho, um dia era um jovem, que tinha muitos sonhos...

E hoje ele aprendeu que os sonhos, pelo menos eles, não envelhecem....

Este é o podcast Mundo Espiritual, eu sou Carlos Biella e a produção, edição e apresentação são minhas e a arte das capas dos episódios é feita por meu filho, Hugo Biella.

Ouça ou baixe nosso podcast, confira o conteúdo do episódio e entre em contato conosco. Você nos encontra no Facebook (https://www.facebook.com/podcastmundoespiritual), Instagram (https://www.instagram.com/podcastmundoespiritual/) e nas diversas plataformas players de podcast.

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Caso você se interessar, tenho minhas palestras e outros vídeos em meu canal no YouTube. Procure por Carlos Biella, inscreva-se no canal e nos acompanhe. O link está na transcrição do episódio (https://www.youtube.com/channel/UCMpcMSh6nbb9LtujlgfabOA).

Pois então, este episódio fugiu um pouco do que costumo produzir, mas, gostei muito de fazê-lo. Foi uma ideia que surgiu em forma de um texto que comecei a escrever.

Espero que vocês tenham gostado.

Estiveram conosco, neste episódio, Carlos Galhardo, Cassimiro de Abreu, Roberto Carlos, Banda do Sul, Titãs, Almir Sater e Renato Teixeira, Legião Urbana, Rubem Alves, Rita Lee e Milton Nascimento.

 Antão, aproveite cada vez mais seu tempo.

Viva cada vez mais o presente.

Envelheça com alegria, espontaneidade e muito amor no coração.

Afinal não é por estarmos mais velhos que deixamos de ser felizes.

Ah, aquele senhor que sorriu para mim quando olhei no espelho, me ensinou que o tempo, não para, por mais que queiramos. E o melhor é aprender, sempre, com ele, aproveitando cada momento da vida.

Procure, você também, no espelho de sua vida ver se não encontra alguém mais velho do que você se acha ser e sorria para ele. Com toda certeza, ele sorrirá de volta para você.

Por mais que o tempo passe e que envelheçamos, nunca deixe de sonhar.

Nossa vida é cheia de sonhos, frustrados e realizados.

Nunca deixe que o tempo leve sua capacidade de sonhar.

Afinal, com o passar do tempo, nós envelhecemos, mas os sonhos, os sonhos não envelhecem.


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