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MÚSICA DA ALMA # 21 - PRECISO ME ENCONTRAR

Foto do escritor: Carlos A. Biella
Carlos A. Biella
há 51 minutos
6 min de leitura



Preciso Me Encontrar.


Existem canções que parecem escritas para um momento específico da história, mas existem aquelas que traduzem a própria jornada da existência humana. Esse é o caso desta canção. Quer saber mais? Então, vem comigo e aproveite.

Sejam todos muito bem-vindos, este é o podcast Música da alma. Um podcast dentro do universo Mundo Espiritual.

Eu sou Carlos Biella e a produção, edição e apresentação são minhas e a parte gráfica fica por conta do Hugo Biella.

Acompanhe todos os nossos episódios nas plataformas players de podcasts, procurando por podcast Música da Alma, ou acessando o site www.podcastmundoespiritual.com.br e clicando na aba Música da Alma.

Eu convido você para vir comigo, numa viagem em busca da nossa própria essência, através de uma canção, composta por Candeia e eternizada na voz inconfundível do mestre Cartola: Preciso Me Encontrar. (https://youtu.be/56mu8KSUYqk?list=RD56mu8KSUYqk)

Essa é uma daquelas obras-primas da música brasileira.

Lançada em 1976 no segundo disco de estúdio de Cartola, a música nos apresenta uma poesia pura sobre desapego, busca interior e a impermanência da vida.

Candeia, o autor da canção, compôs essa obra em um momento de profunda transição pessoal e quando Cartola coloca sua voz ao mesmo tempo grave e aveludada, a canção deixa de ser um mero samba e se torna uma verdadeira oração de libertação.

Antônio Candeia Filho nasceu no Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1935. Foi cantor, compositor e instrumentista.

Importante figura na história da Escola de Samba Portela, foi um de seus fundadores.

No início dos anos 1960, ingressou na Polícia Civil, assumindo o cargo de investigador. Em 1965, Candeia se envolveu em um acidente de trânsito e irritado com o ocorrido, ele sacou sua arma e atirou nos pneus do caminhão envolvido no acidente. Infelizmente, o motorista do caminhão reagiu e atirou contra Candeia, atingindo sua coluna vertebral, lesionando a medula e o deixando paralisado da cintura para baixo.

Aposentado por invalidez, passou a se dedicar ainda mais à música e ao samba em especial.

A partir de então, Candeia construiu um legado de grandes sambas para a história da música brasileira, como esse de 1975, na voz da saudosa Clara Nunes (O mar serenou) (https://youtu.be/drGewMyo00A?list=RDdrGewMyo00A)

Preciso me encontrar é uma canção que retrata uma profunda jornada introspectiva, falando sobre a necessidade do autoconhecimento e da busca da própria essência e seu conteúdo nos remete à frase, muitas vezes associada ao filósofo grego Sócrates e encontrada no pórtico de entrada do Templo de Delfos, na Grécia Antiga: Conhece-te a ti mesmo.


Mas, como surgiu essa linda canção?

Ela nasceu a partir de um momento de crise pessoal pela qual passava o jornalista e escritor cearense, Juarez Barroso.

No final de 1975, Juarez, andava meio perdido na vida, e pediu a seu amigo Candeia, que compusesse um samba sobre a busca interna e a necessidade de se reconectar consigo mesmo, através da simplicidade e da natureza.

Candeia escreveu uma obra-prima, uma canção que fala sobre autoconhecimento, sobre a busca por nós mesmos. Ela fala, também, sobre as coisas simples da vida, coisas que a natureza nos oferece, como o nascer do sol e o cantar dos pássaros.

Nesta época, Juarez Barroso estava produzindo o disco de Cartola, e, ao ouvir a canção composta por Candeia, sugeriu que ela entrasse no álbum Cartola II, que seria lançado em 1976.

A interpretação de Cartola para a canção de Candeia acabou se tornando marcante, entrando para a história da música brasileira.

Infelizmente, Juarez Barroso não pode ouvir a interpretação de Cartola, pois faleceu antes do lançamento do álbum, aos 41 anos, por problemas cardíacos.

A canção é sublime, apesar de trazer certa melancolia em sua construção melódica, com a divisão rítmica da primeira parte da música trazendo uma sensação de assimetria e angústia, como se a melodia estivesse, no escuro, tateando à procura de um rumo, o que remete à sensação de se estar perdido.

A interpretação de Cartola parece dar mais destaque à canção, com uma entrega vocal que transforma a densidade da criação de Candeia em um abraço de consolo, de esperança e de reerguimento frente às adversidades.

A canção fala de uma caminhada para dentro da própria vida e quando diz “Deixe-me ir, preciso andar”, ela expressa um sentimento que muitos de nós já viveu.

Preciso Me Encontrar se destaca como uma reflexão sobre a coragem de partir em busca de si mesmo, ainda que isso signifique ter que se afastar temporariamente de tudo aquilo que é familiar.

Os versos iniciais revelam uma urgência em partir: "Deixe-me ir / Preciso andar / Vou por aí a procurar", revelando um eu lírico desorientado, que precisa se afastar de um ambiente que o sufoca, buscando uma maneira de se encontrar.

A frase "Sorrir pra não chorar", reflete uma dor disfarçada e expõe a resiliência humana diante das adversidades e do peso de um coração machucado pela vida. Precisamos lembrar que o sofrimento faz parte da caminhada humana e que a alegria e o riso são verdadeiros bálsamos para que possamos seguir avançando, mesmo sem termos todas as respostas que queremos da vida.

Às vezes, chega o momento em que sentimos que precisamos nos afastar das pressões da vida, das expectativas e até das nossas próprias certezas para entender melhor quem somos.

Essa frase, “sorrir para não chorar” revela o jeito humano de seguir em frente, mesmo quando o coração está pesado ou destroçado.

Ora, a vida nem sempre é leve, mas aprendemos a caminhar apesar disso.

A letra fala da simplicidade e do renascimento interior, colocando a natureza como verdadeira mestra: “Quero assistir ao sol nascer/ ver as águas dos rios correr/ ouvir os pássaros cantar/Eu quero nascer, quero viver". 

Quando estamos perdidos, principalmente quando nos perdemos de nós mesmos – muitas vezes dominados pelo ego – a natureza é o único espelho a nos devolver a simplicidade da vida. Por isso é preciso ver o rio correr e entender o fluxo da vida; é preciso ouvir os pássaros cantar, e buscar recuperar nossa capacidade de contemplação.

A frase "Eu quero nascer, quero viver", nos fala do renascimento em vida.

Quantas vezes precisamos morrer para velhos hábitos para podermos nascer para aquilo que realmente somos? A canção fala da reconciliação com a própria verdade.

Aqui temos a interpretação de Marisa Monte para a canção (https://youtu.be/0eN5sQBfql0)

Uma das frases mais belas, reflete o ápice da busca e consagra a canção como um hino de independência emocional e respeito ao próprio tempo de cura de cada um de nós: "Se alguém por mim perguntar / Diga que eu só vou voltar / depois que me encontrar".

Essa música fala de algo que todos nós enfrentamos em algum momento: essa necessidade de se procurar. Assim, muitas vezes, é justamente caminhando pela vida e para dentro de nós mesmos, que finalmente conseguimos nos encontrar.

Pois é, creio que todos nós, em algum momento da vida, experimentemos a sensação de profunda desorientação. Nestes momentos é que precisamos nos encontrar.

Quando estamos em crise pessoal nos sentimos despedaçados, parecendo que pedaços de nós se desprendem e que precisamos buscar esses pedaços para que possamos nos completar.

O autor desta obra-prima, Candeia, devido à paralisia, acabou desenvolvendo problemas renais e veio a falecer, no Rio de Janeiro, no dia 16 de novembro de 1978, aos 43 anos de idade.

E aqui temos o próprio Candeia interpretando sua inesquecível obra. (https://youtu.be/fmcxvsqg25g)

Lembro que a música fez parte da trilha sonora do filme Cidade de Deus, lançado em 2002, sendo dirigido por Fernando Meirelles. A música aparece em uma das cenas marcantes do filme, a morte do personagem Cabeleira, que tentava fugir com sua companheira Berenice.

Antes de finalizarmos este episódio, ouçam a introdução dos músicos Yamandú Costa e Hamilton de Holanda, nesta apresentação de Marisa Monte e Zeca Pagodinho, ao vivo, em 2016 (https://youtu.be/0M_kXmvX1Ec).

Este é o podcast Música da Alma e eu sou Carlos Biella e a produção, edição e apresentação são minhas e a parte gráfica fica por conta do Hugo Biella.

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Música da Alma, um podcast para te provocar emoções.

Sem dúvida, essa é mais uma daquelas músicas que tocam bem lá no fundo da alma, não é?

Nós vamos ficando por aqui. Estiveram conosco neste episódio, Candeia, Cartola, Clara Nunes, Marisa Monte, Zeca Pagodinho, Yamandú Costa, Hamilton de Holanda e Ney Matogrosso.

Se você está passando por um momento em que sente que se perdeu pelo caminho, lembre-se da letra desta canção.

Às vezes, o ato mais corajoso de amor-próprio e evolução espiritual é dizer ao mundo: Deixe-me ir, preciso andar/Vou por aí a procurar, sorrir pra não chorar/Se alguém por mim perguntar/Diga que eu só vou voltar depois que me encontrar

Espero que tenham gostado.

Encerro o episódio deixando vocês com essa maravilha da música brasileira, com a interpretação sublime de Ney Matogrosso (https://youtu.be/Q4bITlHYUME).

Fiquem todos em paz e até nosso próximo episódio.


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