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MÚSICA DA ALMA # 16 - CARCARÁ

  • Foto do escritor: Carlos A. Biella
    Carlos A. Biella
  • 18 de dez. de 2025
  • 8 min de leitura



Carcará.


Carcará é uma canção que faz uma verdadeira apologia a uma ave de rapina do sertão nordestino. No entanto, serve, também, como modelo de coragem e de resiliência do povo sertanejo brasileiro.

Quer saber mais, então vem comigo.

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Sejam todos muito bem-vindos, este é o podcast Música da alma. Um podcast dentro do universo Mundo Espiritual.

Eu sou Carlos Biella e a produção, edição e apresentação são minhas e a parte gráfica fica por conta do Hugo Biella.

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No dia 27 de fevereiro deste ano de 2025, recebi esta mensagem por WhatsApp: Buenos dias, me encantaria um podcast sobre a música Carcará, com Maria Bethânia. Que te parece?

Assim mesmo, misturando espanhol com português.

Era da minha querida amiga dos tempos de colégio lá na minha cidade natal, no interior de São Paulo, Novo Horizonte. Minha querida amiga Terezinha, que sempre escuta meus podcasts, assiste minhas palestras e sempre me manda recados e comentários.

Ah! Um pequeno detalhe...ela mora lá na Espanha, pertinho de Madri!

Então, minha cara amiga Terezinha, este episódio é pra você.

O Brasil das décadas de 1960 e 1970 foi marcado pelas chamadas “canções de protesto”, trazendo músicas compostas por dezenas de compositores, todos compartilhando um anseio pela democracia, numa reação contraria à ditadura militar instalada em 1964.

João Batista do Vale, o João do Vale, nasceu em Pedreiras (MA) em 1934. Desde pequeno gostava muito de música, mas logo teve de trabalhar, para ajudar a família. Em 1950 foi para o Rio de Janeiro, onde passou a frequentar programas de rádio, para conhecer os artistas e mostrar suas músicas que começaram a ser gravadas por diversos cantores. Em 1964 estreou como cantor no restaurante Zicartola. Foi ali que nasceu a ideia do show Opinião que seria dirigido por Oduvaldo Viana Filho, Paulo Pontes e Armando Costa. Neste show, João do Vale tornou-se conhecido, principalmente pelo sucesso de sua música, composta em parceria com José Cândido e a mais marcante do espetáculo, Carcará.

Aqui o Barbatuques – Corpo do Som ao Vivo, gravado no Teatro Tuca em São Paulo em 02 de outubro de 2005 (https://youtu.be/9GuvFw9f_XQ).

Carcará fez parte do show Opinião, que incluía músicas de Zé Keti, Edu Lobo, Carlos Lyra, João do Valle, Heitor dos Prazeres, Ary Toledo, Sérgio Ricardo, Vinícius de Moraes e muitos outros.

O show trazia uma mensagem clara de descontentamento com a situação do Brasil naquele início de ditadura militar.

O espetáculo foi encenado no teatro do Shopping Center Copacabana, sede do Teatro de Arena no Rio de Janeiro, local conhecido por levar informações ao público sobre sofrimento, opressão e desigualdade social e, por isso, o público maior era formado estudantes universitários, diversos artistas e várias outras pessoas descontentes com a situação do país.

Desta forma, o grande sucesso de Opinião se deve a uma cumplicidade entre o público e o espetáculo, criando um verdadeiro manifesto coletivo que pode ser vivenciado no cantar em grupo de Carcará, numa explosão de revolta e denúncia contra a opressão e truculência de um regime que, assim como a ave de rapina, ataca suas presas indefesas.

A performance de Maria Bethânia parece que, aos poucos, vai adquirindo a forma do pássaro ao longo da canção, cantando como se, aos poucos fosse se transformando no próprio carcará.

A atuação de Bethânia era poderosa e majestosa.

O show Opinião e, consequentemente Carcará, deram início a um período de músicas de protesto, como relata Rodrigo Faour, no livro História da música popular brasileira sem preconceitos: dos primórdios, em 1500, aos explosivos anos 1970. Neste livro tem uma parte falando a respeito da música de protesto no Brasil que surgiu em 1964, vejam:

No caso da música, o marco zero da canção de protesto daquele período pós-golpe é a que deu título ao show Opinião que reuniu na Teatro Arena, em Copacabana, a partir de dezembro daquele ano, um nordestino, João do Vale, uma garota da zona sul carioca, Nara Leão e um sambista negro, Zé Kéti, autor dos versos: “Podem me prender / Podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião.” Alguns meses depois, Nara foi substituída por uma das maiores revelações da temporada, Maria Bethânia, cujo impacto da apresentação foi tremendo. Com uma figura andrógina, agreste e uma voz forte, estreou aos 18 anos cantando “Carcará” (João do Vale/José Cândido), transformando uma singela canção sobre uma ave do sertão num dos hinos de protesto do período: “Carcará, não vai morrer de fome / Carcará, mais coragem do que homem / Carcará, pega, mata e come.” Para culminar, no meio da canção, ela fazia um recitativo agressivo com dados do IBGE referentes ao êxodo rural no país. A música virou seu emblema, puxando seu primeiro LP, em 65.

O show se transformou num álbum, lançado em LP em 1965 e posteriormente em CD em 1994.

Para quem não sabe, LP são os discos de vinil, chamados de Long Play e CD o Compact Disc que veio em seguida.

No site Discos do Brasil (https://discografia.discosdobrasil.com.br/discos/show-opiniao), podemos encontrar muitos dados do álbum, como a capa e a contra-capa com informações sobre o show. Deixei o link na transcrição deste episódio.

Encontrei um trabalho de conclusão de curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de Mariana Figueiró Klafke, intitulado Show Opinião: engajamento e intervenção no palco pós-1964.  Neste trabalho, a autora analisa o show e traz algumas considerações interessantes, como, por exemplo, um quadro com a descrição das faixas encontradas no disco. (https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/79038/000900761.pibgedf?sequence=1).

Assim, na faixa 7, temos um trecho da peça Missa Agrária, de autoria de Carlos Lyra e Gianfresco Guarnieri. A faixa começa com a leitura da carta que João do Vale mandou para seu pai quando fugiu de casa para tentar a vida no sul do Brasil, seguida de um pequeno trecho de Missa Agrária. Em seguida, na faixa 8, Nara Leão canta Carcará, causando grande impacto no público.

Carcará apresenta uma certa multiplicidade de sentidos, apresentando, por um lado, uma alusão à ave sertaneja, resistente ao calor e à seca severa do sertão, nos levando a pensar no sofrido povo nordestino, sobrevivendo aos inúmeros obstáculos que a própria natureza do sertão impõe aquele povo. No entanto, por outro lado, a descrição de um pássaro valentão que pega, mata e come, é uma clara alusão à recente instalada ditadura no Brasil, em 1964.

Em minhas pesquisas para o roteiro do episódio, acabei me deparando com Opinião, publicação de 1965, de autoria dos autores do show, Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes.

Segundo o texto, o show “Opinião” estreou em 11 de dezembro de 1964, no teatro do Super-Shopping Center da Rua Siqueira Campos, numa realização do Grupo Opinião e Teatro de Arena de São Paulo, com a participação de Nara Leão, Zé Keti e João do Vale. Os músicos eram: no violão Roberto Nascimento, na flauta Alberto Hekel Tavares e na bateria João Jorge Vargas. A direção musical foi de Dorival Caymmi Filho e a direção geral de Augusto Boal. Informa que no dia 30 de janeiro de 1965, Nara Leão foi substituída por Suzana de Moraes, que foi substituída no dia 13 de fevereiro de 1965, por Maria Bethânia, com direção musical de Geni Marcondes.

No jornal Diário de Notícias, de Porto Alegre, de 27 de junho de 1965, tem uma reportagem a respeito da estreia do show Opinião na cidade e traz um texto onde Maria Bethânia se apresenta:

Meu nome é Maria Bethânia Viana Teles Veloso. Tenho esse nome de latifundiária baiana, mas sou baiana só. Tenho 18 anos, não consigo sair do ginásio por causa da matemática. Sou filha de um bom sujeito, funcionário do Correio, eu e mais oito irmãos...

Agora sou cantora, mas até os 12 anos eu era meia-esquerda do time de Santo Amaro, onde nasci.

Uma amiga minha na Bahia me procurou: - Berré, querem que você vá pro Rio, substituir a Nara Leão. Eu disse – sei, minha filha, mas não é possível, também me chamaram de Nova York pra substituir a Ella Fitzgerald, mas... – É verdade, Bethânia. Era verdade, sim. Aí fui consultar o meu grupo. Nós somos um grupo – jovens cantores, compositores, músicos. Queremos fazer na Bahia o que se faz em todo o Brasil – cantar nossas filosofias e nossas esperanças. Então um do grupo me disse, como bom baiano – Ô, que felicidade! Você deve ir, Bethânia. Não é você quem foi convidada, foi o nosso grupo, foi o trabalho que a gente já fez. Você vai lá, mostra que a Bahia também está na jogada e volta.

Porreta!

Assim eu topei. Estou aqui – em nome da Bahia, em nome do meu grupo – pra dizer que Opinião, na Bahia, se diz (sotaque baiano) Opinião, mas é a mesma coisa. Nosso grupo já fazia samba de roda – mas depois, Zicartola do Zé Kéti, do João do Vale, da bossa nova – nós resolvemos também cantar da Bahia para o mundo.

O que chamou a atenção de quem assistiu ao show Opinião, foi o fato de que a música Carcará incluía a recitação de um texto retirado de um relatório da Sudene sobre a migração de nordestinos expulsos da terra pela seca e pela fome. Esse fragmento aparece intercalado na apresentação, aumentando dramaticamente o impacto social da música.

Este relatório na realidade, se refere a dados do Censo de 1950, mas compilados em estudos publicados pela Sudene no início dos anos 1960, logo após sua criação em 1959 (pelo presidente Juscelino Kubitschek). Portanto, não é um relatório único oficializado por título. É uma consolidação estatística muito usada nos primeiros relatórios e planos da Sudene, sob direção de Celso Furtado, então superintendente, que destacava os dados do Censo Demográfico de 1950, as comparações com dados parciais de 1960 e servia para mostrar o êxodo nordestino motivado por secas, fome e falta de oportunidades.

Encontrei uma cópia deste relatório, datilografada, para quem sabe o que é isso, ou seja, redigida em uma antiga máquina de escrever. Tem muita gente que nunca viu uma máquina destas.

Assim, em determinada parte da canção, ouvia-se um relatório sobre a migração de nordestinos fugindo da seca, enquanto o coro ecoava o refrão: “Carcará, pega, mata e come / Carcará, não vai morrer de fome”.

Lembrando que esses dados estatísticos chegaram a ser censurados quando o show Opinião estava em cartaz em São Paulo, no ano de 1965.

Carcará trouxe música, letra, coro, informações demográficas, tudo concatenado ao mesmo tempo, levando a plateia a um estado de êxtase.

É bem provável que o Show Opinião, tenha incorporado a música Carcará, relacionando-a à representação do mal, mal esse expresso no pós-golpe militar que acabou por atingir toda sociedade brasileira, com suas garras repressivas.

Aqui temos Gabriel Vale, natural de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Gabriel é neto de João do Vale, um dos autores de Carcará e regravou a música em 2024 ( https://youtu.be/g9Ioh1sIPaU).

A música Carcará acabou sendo marcada pela interpretação intensa de Maria Bethânia, carregada de emoção, transmitindo a dureza e a resistência que são simbolizadas pela ave nordestina.

Carcará tornou-se um clássico da musicalidade brasileira, um verdadeiro hino de resistência, associado à luta e à força do povo do sertão nordestino, luta esta, que parece nunca ter fim, diferente deste nosso episódio que vai chegando a seu final.

Este é o podcast Música da Alma e eu sou Carlos Biella e a produção, edição e apresentação são minhas e a parte gráfica fica por conta do Hugo Biella.

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Música da Alma, um podcast para te provocar emoções.

Então, o show Opinião acabou sendo uma tentativa de manter um debate aberto sobre a situação no Brasil no início do regime ditatorial, debate que já começava a se tornar difícil e que acabou por se tornar, por muito tempo, impossível.

Qualquer coisa contrária ao regime militar da época, corria-se o risco de vir um Carcará, pegar, matar e comer!

Fiquem todos em paz e até nosso próximo episódio.


2 comentários

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Marcelo Serpa
Marcelo Serpa
18 de dez. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Excelente 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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Carlos Alberto Biella
Carlos Alberto Biella
19 de dez. de 2025
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Obrigado pela atenção, Marcelo

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