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MÚSICA DA ALMA # 17 - CONSTRUÇÃO

  • Foto do escritor: Carlos A. Biella
    Carlos A. Biella
  • 29 de dez. de 2025
  • 9 min de leitura



Construção.


Essa é uma das músicas mais proclamadas de Chico Buarque e já foi eleita como a melhor música brasileira de todos os tempos pela revista Rolling Stone. Este episódio é sobre a música Construção. Quer saber mais? Então, vem comigo.

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Sejam todos muito bem-vindos, este é o podcast Música da alma. Um podcast dentro do universo Mundo Espiritual.

Eu sou Carlos Biella e a produção, edição e apresentação são minhas e a parte gráfica fica por conta do Hugo Biella.

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O ano era 1971, o Brasil vivia em meio a um período de turbulência devido ao regime militar. E graças a esse mesmo regime militar, em especial ao descontentamento gerado por ele, havia uma efervescência cultural no país. A música se mostrava como uma das maiores armas dos artistas para denunciar o descontentamento popular.

Dentro deste universo, Francisco Buarque de Hollanda, foi, sem dúvida, um dos compositores mais marcantes da música brasileira. Chico Buarque é autor de canções que emocionam, divertem e arrepiam, sendo um dos grandes nomes da musicalidade brasileira.

O Brasil neste começo dos anos 70 era cheio de contradições. O governo do General Médici buscava o "Milagre Brasileiro", prometendo um crescimento econômico recorde e uma baixa inflação. Chegamos ao tricampeonato mundial de futebol. Os carros exibiam em seus vidros, a frase "Brasil. Ame-o ou Deixe-o". A censura era severa e a repressão violenta.

Foi nesta realidade brasileira em que, após um período exilado na Itália, Chico Buarque retorna ao Brasil, pronto para bater de frente com tudo isso. Chico lança, em 1971, o disco Construção. Neste disco, na quarta faixa do lado A do vinil, aparecia a música que deu título ao disco: Construção.

Eu iniciei este episódio com a música tocada pela Banda Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo, sob a regência de Mônica Giardini (https://youtu.be/WbkkadEQsmQ)

Construção é uma crônica sobre a vida e a morte de um trabalhador da construção civil, um dos setores que mais se expandiam na época. No entanto, os operários eram como peças de reposição, ganhando pouco e com uma extensa jornada de trabalho. Os acidentes eram frequentes. Chico, ao colocar isso em uma canção, criticou indiretamente o governo da época.

Na canção, o personagem sai de casa, beija a mulher e os filhos e vai para o trabalho, onde assenta tijolos e ergue paredes de maneira maquinal.  Pausa para comer e beber, se desequilibra e cai, morrendo no meio da rua.

Chico Buarque, em 1993, numa entrevista à revista Status, confessa que inicialmente tudo não passava de uma experiência formal, e que a ideia de narrar os últimos instantes de vida de um operário veio depois da música quase pronta.

Lembro aqui que o ritmo é um elemento essencial na poesia, e ainda mais importante na canção, onde ocorre a união entre a letra e a melodia. Em Construção, boa parte do ritmo é dada pela métrica dos versos, que são alexandrinos, ou seja, possuem doze sílabas poéticas com uma cisão na sexta sílaba. Esse tipo de verso longo necessita de uma pausa, levando a uma cadência no meio do verso.

A temática da canção é o cotidiano de um trabalhador na construção civil e a forma que os versos são cadenciados nos remetem a ideia de uma construção.

Outra característica importante no ritmo da letra é que todos os versos terminam com proparoxítonas.

Opa!!

Você se lembra o que são proparoxítonas?

Proparoxítonas são aquelas palavras cuja sílaba tônica é a antepenúltima.

Construção apresenta 17 proparoxítonas que se intercalam nos 41 versos que compõem a canção.

Essa repetição das palavras gera um efeito chamado de homofonia, onde sons iguais se repetem causando uma unidade rítmica, remetendo, também ao tema do cotidiano, onde os dias vão se seguindo, com pequenas variações.

Construção apresenta uma melodia sombria e melancólica, que reforça o tom sombrio da letra.

É uma poderosa crítica social, abordando questões como a desigualdade e a exploração da mão-de-obra. O operário da construção civil é apresentado como um símbolo da classe trabalhadora, cujas vidas são sacrificadas em nome do aclamado progresso.

A música revela toda genialidade do compositor em mudar algumas palavras e dar um novo sentido as mesmas construções da letra. Como disse Rodrigo Faour em seu livro História da Música Popular Brasileira – sem preconceitos, referindo-se à Chico Buarque: “seus temas eram, na maioria, atemporais e não mero pano de fundo para um consumo provocativo descartável”.

A letra inicia narrando o começo do dia de um trabalhador que se despede da família para mais um dia de trabalho:

Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher como se fosse a última

E cada filho seu como se fosse o único

E atravessou a rua com seu passo tímido

Em seu local de trabalho, que percebemos ser na construção civil, relata sua árdua rotina:

Subiu a construção como se fosse máquina

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico

Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Durante a pausa para descansar, ele almoça, bebe, ri e dança:

Sentou pra descansar como se fosse sábado

Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe

Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago

Dançou e gargalhou como se ouvisse música

Então, a narrativa ganha contornos trágicos, com o trabalhador, no alto do edifício, se desequilibrando, caindo e morrendo ao atingir a rua.

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E flutuou no ar como se fosse um pássaro

E se acabou no chão feito um pacote flácido

Agonizou no meio do passeio público

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Percebemos o choque entre esperança e realidade, com o trabalhador se sentindo “um príncipe" e se comparasse a "uma máquina", logo se compara a "um bêbado" e a "um pacote flácido".

Então, as palavras se alteram e a letra ganha novo significado, com o ritmo da música se acelerando. A história é contada de uma outra maneira, parecendo haver um desequilíbrio emocional na narrativa.

Amou daquela vez como se fosse o último

Beijou sua mulher como se fosse a única

E cada filho seu como se fosse o pródigo

E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas

Tijolo com tijolo num desenho lógico

Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe

Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo

Bebeu e soluçou como se fosse máquina

Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se ouvisse música

E flutuou no ar como ne fosse sábado

E se acabou no chão feito um pacote tímido

Agonizou no meio do passeio náufrago

Morreu na contramão atrapalhando o público

Vem, então, a terceira e última parte da música, uma espécie de condensação da história. Aqui ritmo se torna ainda mais intenso e tudo se resume em apenas sete versos.

Amou daquela vez como se fosse máquina

Beijou sua mulher como se fosse lógico

Ergueu no patamar quatro paredes flácidas

Sentou pra descansar como se fosse um pássaro

E flutuou no ar como se fosse um príncipe

E se acabou no chão feito um pacote bêbado

Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Existem inúmeras análises desta obra de Chico Buarque, incluindo análises sociológicas e psicológicas, que trago aqui para vocês.

Encontrei um artigo na internet, assinado por Roniel Sampaio Silva, que associa a canção ao conceito de consciência de classe de Karl Marx.

No livro Dicionário de Sociologia, de Allan Johnson, segundo Marx, as sociedades são formadas pela dialética das condições materiais e antagonismo de classes, onde os indivíduos são agrupados em classes sociais, segundo seu papel no processo produtivo. Assim, teríamos a burguesia como sendo o conjunto de indivíduos detentores do controle dos meios de produção e o proletariado, a classe trabalhadora, contendo aqueles indivíduos que possuem apenas a força de trabalho, no caso da música, o personagem do trabalhador que morre ao cair da construção.

A canção é dividida em três partes. Cada uma das três partes da música diz respeito a uma rotina de um segmento da classe operária: 1- O trabalhador sem consciência de classe e que é extremamente explorado, 2- O trabalhador com consciência de classe, 3- A alta classe média e pequena burguesia.

Já, Paulo Cavalcanti, num artigo na Revista Rolling Stones, em novembro de 2009, diz o seguinte: “Chico situa tudo em formato não discursivo, até mesmo impessoal. As estrofes são repetidas três vezes, com algumas palavras-chave sendo trocadas de posição. Mas são essas mudanças que tornam ambígua a compreensão da música. Na primeira vez, o cantor apresenta a história de uma forma lógica, quase jornalística. Na segunda repetição, a mesma história é contada, mas agora é levado em conta o estado psicológico do protagonista, que já estava se transformando num autômato. Na parte final, que não aparece na íntegra, o peão anônimo já se encontra demente e alucinado, não é dono de suas ações. O trabalhador teria morrido como consequência da falta de condições de trabalho ou teria se suicidado, desesperado diante de suas escassas perspectivas de vida?”.

Essa crítica social de Construção fez com que ela seja considerada uma das canções mais emblemáticas desta característica de Chico Buarque, podendo, como cita Adélia Bezerra de Menezes no livro Desenho Mágico: Poesia e Política em Chico Buarque, enquadrar Construção “como um testemunho doloroso das relações aviltantes entre o capital e o trabalho”.

A letra é intrigante e inquietante, ao mesmo tempo. Gera um certo desconforto a quem a escuta. No entanto, Construção não seria assim tão exuberantemente arrebatadora, sem o imponente arranjo de Rogério Duprat, que utilizou da orquestra como um componente importante na narrativa da canção. O arranjo entrega um componente sinistro à canção, com os instrumentos nos trazendo os sons caóticos de um prédio em construção numa cidade barulhenta.

Se Construção, por si só já chama atenção de quem a escuta, causando um certo desconforto com a crítica social apresentada, Chico termina a música com três estrofes retiradas de outra música, Deus Lhe Pague.

Deus lhe pague traz uma ironia amarga, com uma série de agradecimentos a Deus, em tom sarcástico, pelas condições precárias e pela exploração que são apresentadas na letra de Construção.

Segundo Chico Buarque, ao compor Deus lhe pague, primeiro nasceu o tema musical de um som chateando o tempo todo. Depois ele inventou coisas pra Deus pagar. Algumas destas coisa, segundo Chico, Deus sequer tomou conhecimento, como o verso "dessa tempestade que está aí", que teve de ser substituído por outro e por outros tantos versos que foram sendo substituídos para que a letra fosse liberada pela censura vigente na época.

Assim, Deus lhe pague entra como se fosse uma resposta do trabalhador que acabou de morrer, atrapalhando o sábado.

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir

A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir

Por me deixar respirar, por me deixar existir

Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir

Pela fumaça e a desgraça que a gente tem que tossir

Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair

Deus lhe pague

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir

E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir

E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir

Deus lhe pague

Eu não sei se vocês se lembram, mas, esta versão orquestrada, foi tocada durante a abertura do Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Ela foi executada enquanto os bailarinos escalavam e dançavam nas estruturas representando construções da cidade, antes da aparição da réplica do avião 14 Bis.

Resumindo tudo o que aqui dissemos, trago novamente Rodrigo Faour, no seu livro História da Música Popular Brasileira – sem preconceitos: a impactante Construção “apresentava uma poética ultrassofisticada, somente com versos dodecassílabos, sempre terminados em palavras proparoxítonas, e depois repetidos na segunda parte com as últimas palavras alternadas. Ela vinha seguida da corrosiva Deus lhe pague, também de sua autoria num arranjo de tensão progressiva assinado por Rogério Duprat, formando uma das faixas mais avassaladoras já feitas de crítica social em nossa discografia”.

Enfim, Construção é uma verdadeira obra-prima de Chico Buarque que, com majestosa habilidade lírica e melódica, nos brindou com uma canção que representou tão bem o Brasil dos anos 1970 e que, ainda hoje, é altamente relevante e impactante a quem a ouve.

Nós vamos ficamos por aqui.

Este é o podcast Música da Alma e eu sou Carlos Biella e a produção, edição e apresentação são minhas e a parte gráfica fica por conta do Hugo Biella.

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Música da Alma, um podcast para te provocar emoções.

Em 2009, a revista Rolling Stones, especializada em música, elegeu Construção como a melhor música brasileira de todos os tempos.

Sem dúvida, Construção é uma obra-prima da música brasileira, reunindo poesia, crítica social e inovação musical de forma brilhante.

Construção não é simplesmente uma canção, é um verdadeiro monumento artístico que, mesmo agora, mais de 50 anos depois, continua emocionando e provocando reflexões.

Fiquem todos em paz e até nosso próximo episódio.


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